Uma herança Brasileira para Daniel Beerstecher – PORT/DTSCH

Daniel Beerstecher

Uma herança brasileira para Daniel Beerstecher*

*Publicado no catálogo das individuais Land Sailor, Kunsthalle Göppingen e Country-Sailor, Kunstverein Wilhelmshöhe, Ettlingen, Alemanha, 2015. PDF abaixo.

Brasil, 1808: a era colonial chegava ao fim com a mudança do Príncipe Regente de Portugal, D. João VI, e sua corte, para a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, em fuga das forças napoleônicas e espanholas que ameaçavam a segurança do território português. É graças a esse fato, e portanto de modo quase acidental, que vários avanços sociais e institucionais são implantados no nascente país inaugurando o longo e ainda inacabado processo de construção da sociedade brasileira moderna. No início do Século 19 vão surgir o primeiro banco, a bolsa de valores, a academia de belas artes e a biblioteca, entre outros, em uma colônia onde até então era proibida a educação formal e a imprensa – o que mantinha o povo na ignorância e submissão. Nesse movimento de aberturas seria também revogada uma lei que proibia a circulação de estrangeiros por terras brasileiras, gerando assim um aumento no número de expedições de artistas viajantes europeus que desembarcaram no Brasil para explorar e documentar a flora, a fauna e os povos locais. Tais expedições foram responsáveis por uma vasta produção literária, pictórica e de desenhos, que retratavam espécimes naturais desconhecidas, paisagens, animais exóticos e tipos humanos “primitivos”, como os “selvagens canibais”, e ajudavam a compôr o imaginário europeu acerca do Novo Mundo, descrito ora como inferno, ora como o paraíso terreno.

Das expedições de artistas viajantes alguns membros foram fundamentais para o desenvolvimento das artes e o seu ensino no país, como foi o caso de Jean-Baptiste Debret, integrante da Missão Francesa no Brasil (1816), que integrou o primeiro corpo de professores da Academia Imperial de Belas Artes, no Rio de Janeiro, chegando a ser diretor. Durante os 15 anos que residiu no país, Debret retratou tipos e costumes das jovens urbes, deixando um legado que se tornou referência para os estudos acerca do Brasil colonial.

O período colonial é teoricamente suplantado com a Proclamação da República de 1889, quando então o Brasil começa a caminhar como nação soberana. No que tange à produção artística, será apenas na década de 1920 que um grupo de artistas modernistas começa a enfrentar o modelo acadêmico francês que reproduzia pinturas realistas de cunho romântico ou épico como legado de quase um século de Academia de Belas Artes. Embora indicasse uma ruptura, trazendo uma visualidade cromática e temas locais, o primeiro Modernismo brasileiro bebia em referenciais vanguardistas europeus, e a arte brasileira levaria algumas décadas para encontrar uma linguagem original, engendrada aqui, que pudesse de uma vez se colocar como proposição diante da arte estrangeira e da própria crítica internacional que resumia produções estéticas não-eurocêntricas como arte pitoresca, exótica ou cópia ruim do modelo ocidental. Tal cenário começa a mudar de fato no final dos anos 1950, quando o concretismo que havia se instalado aqui tardiamente é desconstruído e canibalizado por um pensamento artístico baseado no Rio de Janeiro, que fez eclodir o Neoconcretismo. O resto, é uma longa e ainda fresca história.

Hoje este país republicano de dimensões continentais possui uma democracia conquistada a duras penas, e continua mostrando-se artisticamente prolífico. Ao mesmo tempo, pese todos os seus agudos problemas sociais e um quadro de desemoralização da política interna aliado a um cenário de convulsão global, o Brasil ainda se apresenta como esperança cultural e alternativa de equilíbrio ambiental para o mundo. A previsão internacional de inícios dos anos 2000 sobre os potenciais dos BRICs como horizonte próspero – e que já dá sinais de incerteza, provocou uma nova onda de imigrição latino-americana, asiática, africana e européia, especialmente pós-2008. Tal movimento trouxe profissionais de toda sorte e, no que concerne ao microcosmo do sistema da arte, um contingente razoável de artistas estrangeiros se estabeleceu, aproveitando os ventos de profissionalização do meio artístico que começaram a soprar mais forte há pouco mais de uma década. No país que acolheu Daniel Beerstecher, entre outros artistas viajantes do Século XXI, existe um cenário artístico que há tempos ultrapassou o passado pitoresco e possui uma história da arte instigante que ainda se escreve. Essa condição permite ao criador um diálogo com a incompleta fortuna do modernismo brasileiro, repleta de falhas e brechas, que se traduz em um cotidiano precário e improvisado que inexoravelmente afeta a obra de arte que observa o entorno social.

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Em Novembro de 2011 Daniel Beerstecher arrumou suas mochilas e viajou para o Brasil passar uma temporada que se estende até esta data. O artista, cujo interesse no fazer artístico começa quase por acaso, durante uma longa viagem pela América Latina, vive no Rio onde dá continuidade a seu trabalho processual e performático, que naturalmente expande e confunde as bordas da arte e da vida. O trabalho de Beerstecher, embora apresentado em projetos que parecem distintos entre si, move-se por um genuíno interesse nas possibilidades críticas, irônicas e relacionais disparadas pelas propostas de arte. Nesse sentido, sua exposição “Deslocamentos” (2014), ocorrida na Galeria da Funarte em São Paulo, evidencia isso quando transforma a galeria em um boteco popular que deveria reunir pessoas e funcionar como interpretação e tradução do contexto brasileiro vivenciado por Daniel.

De modo geral os seus projetos se caracterizam por ter a deambulação como método investigativo, e por frequentemente inventarem contextos absurdos que confrontam símbolos da cultura Ocidental à natureza sublime, satirizando, ainda que sutilmente, os românticos e mortais esforços do homem em tentar dominar a terra à força. Tais processos e questões se colocam de modo claro, por exemplo, em “Hugo Boss/Sarek” (2005), “Sand and Meer” (2007), “Outdoor-Mobil” e na saga “Land-Sailor” (2012-2014). Ao mesmo tempo em que os atos deambulatórios e performáticos, juntamente com um planejamento meticuloso, são uma marca da obra como um todo, vale ressaltar que a persistência do artista, por mais esdrúxulo e difícil que seja o seu alvo, não tem a ver diretamente com uma vontade de infligir ao corpo situações de provação ou esgotamento. Embora sofra os estresses de sua tarefa, a relação de Beerstecher com as provações que se lhe apresentam está no trabalho de modo racional e distanciado, uma vez que dados emocionais ou sentimentais não são relevantes.

Pode-se dizer que sua obra é costurada por um interesse etnográfico e antropológico intuitivo, no sentido de não estar apoiado em estudos acadêmicos e muito menos em uma formação clássica nestas àreas. Enquanto produz no Brasil, o artista se reconhece como estrangeiro e não demonstra desejo de se mimetizar na cultura local, estando atento ao tipo de recepção diferente que sua pesquisa artística tem na Alemanha e aqui. É curioso notar em sua fala de artista como tira proveito de traços antagônicos entre as culturas dos dois países sem, no entanto, desprezá-los, surfando na areia para encontrar a medida entre o excesso de correção e planejamento alemães e a imprevisibilidade brasileira.

Posicionando-se, ainda, como um observador crítico, ele elabora situações ficcionais entrelaçadas à realidade que aproximam seu trabalho ao do dramaturgo ou roteirista que inventa estórias a partir de fatos reais. As ficções de Daniel Beerstecher, contudo, por estarem circunscritas ao campo da arte contemporânea, onde a diluição entre arte e vida pode ser extremamente radical, são mais próximas do real do que no cinema não-documental ou no teatro – onde a representação ainda predomina e submete, por vezes, a linguagem e a forma artística.

Ao colocarmos, sem compromisso histórico, a obra de Beerstecher em perspectiva com os desenvolvimentos de uma linguagem estética no Brasil, poderíamos experimentar aproximar suas pesquisas deambulatórias da herança deixada pelas nossas vanguardas modernistas, cujas primeiras deambulações artísticas se dão nos anos 1920, influenciando um legado na literatura e nas artes plásticas. É, contudo, apenas no final dos anos 1950, com o chamado Movimento Neoconcreto, que o deambular como processo de criação e questionamento formal se engendra por aqui. Retomando o tom inicial deste texto onde arriscamos uma breve deambulação na história da arte brasileira para localizar a prática deste nosso artista viajante, é válido comentar que o Neoconcretismo surgiu entre artistas que compreendiam o construtivismo como um conceito a ser desenrijecido e apropriado. Em meio a tais discussões surge no país uma vanguarda artística multidisciplinar que tem no deambular uma fonte criativa, e fez surgir, nas artes plásticas dos anos 1960, discursos e práticas relacionais próprias.

A deambulação, instalada como gatilho criativo na produção artística contemporânea brasileira possui hoje nomes atuantes importantes, de diferentes gerações, como é o caso do português radicado no país Artur Barrio (1945), o carioca Ducha (1977) e o mineiro Paulo Nazareth (1977). Em comum, eles compreendem a vida como obra de arte existencial e política, que implica na construção de particulares discursos de crítica e formas de pensamento-arte. Assim como na obra de Daniel, os projetos artísticos dos brasileiros demandam processos relacionados a caminhar, viajar ou deixar o tempo passar como atos de resistência. Tais processos costumam gerar espécies distintas de diários: Um caderno-registro em branco das errâncias urbanas de Barrio, os relatos e fotos das investigações sobre as relações entre homem, capital e natureza do artista e escalador Ducha, ou as fotografias e objetos que documentam a travessia de Paulo Nazareth a pé, pelo continente americano, juntando terra nos pés mamelucos semi-descalços.

Sendo talvez mais irônico do que os colegas brasileiros, e mais preocupado com os recursos e acabamentos técnicos que o próprio trabalho exige, Daniel Beerstecher termina por apresentar diários que ora são filmes, ora colagem, fotografia e até um livro. Esses relatos-diários, resultantes de uma grande edição narram a situação proposta pelo artista e funcionam como um grande conjunto ainda em aberto, formado por capítulos ou tomos de uma coleção de registros em andamento, relativos a vivências que estão por vir.

Para falar das práticas deambulatórias na arte de um modo mais amplo poderíamos começar por Baudelaire, passar pelos dadaístas, situacionistas, artistas do fluxus, o tropicalismo, os coletivos artísticos na virada do século XXI e citar artistas atuantes no meio da arte contemporânea global, entre tantos muitos movimentos e nomes. Mas este passeio ficará para uma outra oportunidade. Por ora deixaremos Daniel Beerstecher voltar a caminhar obstinado pelo mundo friccionando o ritmo ordinário da vida; ele viaja atrás de objetivos que surgem como idéias absurdas mas, por que não, carregam a fé de serem executáveis. Sempre em busca de novas rotas, o artista não tira férias.

Daniela Labra. Setembro 2015

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