April 7, 2009

Sobre a Atividade Curatorial Independente no Brasil

Sobre a Atividade Curatorial Independente no Brasil*

*texto apresentado no simpósio Panorama do Pensamento Emergente. Organização: Cristiana Tejo. Recife, 2008

Iniciei minha atividade com curadoria há 5 anos, num projeto onde me julgava a produtora, mas que na verdade exercia a função de curadora: argumento, proposta teórica, pesquisa, seleção dos artistas, negociação dos projetos artísticos e viabilização financeira e institucional: tudo havia sido proposto e acompanhado por mim. GearInside era o nome da empreitada que levou 10 artistas brasileiros para uma residência investigativa sobre intervenções urbanas de cunho político em Rotterdam, Holanda. Ao ler meu nome como “curadora” nos impressos em inglês, me senti mal. Não me via preparada para assumir tão pomposo cargo, e tão pouco tinha alguma orientação de como proceder nas etapas que envolvem o trabalho curatorial. Tudo o que foi feito deu-se pelo instinto e, apesar de na época ter saído viva com diversas escoriações, a experiência foi o abre-alas para muitas outras que se deram depois no campo da curadoria.

Até 2003, minhas parcas vivências com a atividade curatorial haviam se dado levemente na academia e depois, nos fundamentais encontros do grupo de ‘jovens críticos’ no Centro Mariantonia, coordenados pelo professor Lorenzo Mammi. Essas vivências no entanto, não me prepararam para exercer a prática da curadoria com algum nível de segurança e conhecimento de causa. O que sei do rol curatorial aprendi no auto-didatismo, estando  apoiada numa formação profissional de base interdisciplinar.

Não pretendo porém, tirar de meus colegas esse mesmo mérito. Sabemos que não há uma escola que forme curadores no Brasil e que, mais importante ao meu ver, não há possibilidades de estágios e treinamentos em instituições que poderiam dar esse suporte. Os cursos de curadoria que já despontam por aqui, me deixam dúvidas sobre uma mão de obra que irá se especializar para trabalhar num meio onde faltam coisas muito mais básicas do que curadores e artistas.

Dentre as carências do meio, ainda tateamos para que haja uma definição sobre o que são as bases de trabalho do curador. Assim como os artistas se queixam da falta de profissionalização que os expõem a não pagamento de cachês, falta de seguro de obras, uso indevido de imagens, entre outros, o oficio do curador também fica à mercê de sustos que poderiam ser evitados caso houvesse maior acordo sobre as responsabilidades e direitos desse profissional e do espaço que acolhe seu projeto. O curador autônomo que se arrisca um pouco mais, está sujeito a trabalhar nos mais diferentes tipos de situações: de grandes instituições públicas a salas alternativas, passando por galerias comerciais a eventos corporativos – cada um com sistemas e possibilidades de financiamento distintos, é bom lembrar. Para mim, tais experiências têm sido muito gratificantes, possibilitando o conhecimento de diversas estratégias de atuação e fazendo-me deparar com situações as mais díspares.

Foi nessa trajetória-aprendizado que fui compreendendo as tais responsabilidades e direitos do curador, sendo muito comum, porém, isso só ficar entendido unilateralmente: o que está claro para mim, nem sempre está claro para os parceiros institucionais de meus projetos.  Vez por outra me vejo às voltas com desrespeitos a minha atividade e por extensão, à do artista convidado, sendo muito constrangedor. Raramente assinamos contratos quando fazemos uma exposição modesta e principalmente, quase sempre devemos adequar os trabalhos ou até a proposta expositiva às inadequações de espaços caquéticos que oferecem uma sala, algumas lâmpadas, um folder e nada mais. São poucos os espaços de arte que realmente estão abertos para os desafios que a arte contemporânea traz. Editais e locais sem verba alguma e/ou galerias de exposições temporárias em edifícios históricos sem estrutura, onde não se pode furar, pendurar ou pintar as paredes são corriqueiros.  Entretanto, muitas vezes não sabemos de ante mão o tamanho da cilada, só nos deparando com a inadequação institucional na hora da execução da exposição e aí, já pode ser tarde para fugir.

O curador autônomo muitas vezes banca também o produtor (quando não está trabalhando com algum) devendo cuidar, além da parte conceitual, da logística que envolve adequação de orçamento e prestação de contas.  Imagino que à frente de uma instituição, esse profissional deve igualmente se preocupar com essas questões, mas é apoiado por um conselho administrativo que lhe ajuda com a burocracia pesada.

Embora aponte para dificuldades da prática autônoma, há também um lado muito belo em poder ter liberdade para apostar em projetos próprios. O nó górdio no entanto continua sendo onde e como apresentar, no Brasil, esses projetos para que eles possam acontecer com a devida verba e respeito, mantendo-se íntegros. Como, ‘chutar o pau da barraca’ nem sempre é a solução, devemos procurar o diálogo com a instituição. Mas quando o diálogo emperra – ou não existe… O que podemos fazer?

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This obra by daniela labra is licensed under a Creative Commons Atribuição-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil License.
Based on a work at www.artesquema.com.

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