February 21, 2012

Performar, Performando

Performar, Performando*

Daniela Labra

*Texto publicado em: Performance Presente Futuro Vol. 3. Rio de Janeiro. Automática/Oi Futuro, 2011

Performar é um verbo inventado, derivado da expressão em inglês performance, que significa desempenho. Um boa performance – ou bom desempenho, tem sido uma das maiores exigências da contemporaneidade. Na vida cotidiana, performar é um ato a ser cultivado diariamente, seja pelo executivo ou pela manicure, no exercício de suas profissões. Na arte, a performance é uma linguagem estabelecida na lista das práticas artísticas contemporâneas, que processa e ressignifica em ações ao vivo atos tão banais quanto amarrar os sapatos.

Em sociedade, a performance é percebida em situações de coletividade em que há um acontecimento ritualizado, como uma boda, uma festa junina ou uma final de campeonato estadual, e também em situações de alto apelo estético, como no caso de um espetáculo ou obra de arte. Como tema de estudo, a performance é passível de ser abrangida por muitos campos como a antropologia, o teatro, a dança, a sociologia, a comunicação social e as artes plásticas, entre outros, e é essa pluralidade que circunscreve a indefinição – e a liberdade – do termo e seu respectivo fazer.

Em uma tentativa de estabelecer algumas definições para a performance apenas no campo artístico, podemos dizer que ela: “intensifica o momento presente; permite o encontro e a interação entre artista e espectador, levando à mobilidade de papéis; cria sentidos e significados durante a sua ocorrência, em detrimento da transmissão dos mesmos previamente decididos antes desta; tem a especificidade da experiência”.1

Em uma sociedade competitiva regida pelo tom espetaculoso, onde performar é necessário, podemos pensar que seria redundante insistirmos nesta arte que “tem a especificidade da experiência”, posto que seu potencial, construído sobre elementos singelos de complexidade conceitual, seria esmagado pelo alienador contexto narco-excitante que nos envolve.

Entretanto, a performance arte, por sua natureza erigida sobre os pilotis do tempo e inter-relação reais, tem justamente na experiência aquilo que mais pode subverter tal ordem: o contato direto e verdadeiro entre o eu e o outro. Assim, fica claro que performar a vida na arte permanece um ato político tão importante como nos anos 1960, período em que se deu a sua institucionalização como linguagem artística.

Enquanto disciplina institucionalizada, pode-se dizer que a arte performática é cria das vanguardas norte-americanas e europeias de mais de quarenta anos. É fato ainda que a performance arte não tem hoje o mesmo impacto inovador de outrora, integrando-se comportadamente à lista de linguagens artísticas contemporâneas. No entanto, o que existe é a atualização e consequente recontextualização histórica e social de algumas temáticas que são recorrentes em sua história, do mesmo modo como acontece com todas as outras práticas, da pintura à videoarte.

Podemos tomar como exemplo a questão da nudez, que é um recurso ainda presente em muitas ações. Se, no passado, o corpo nu significava vanguarda e escândalo, no momento atual a sua banalização na mídia é consenso. Portanto, somente o discurso que propõe a ação desnuda neste contexto poderá transformá-la em algo novo, uma vez que a tônica não é mais trazer o choque revolucionário, como já foi um dia.

Assim, de acordo com a situação, o performer despido, ao contrário de desejar exorcizar tabus, talvez queira chamar a atenção para questões mais elementares como o retorno do homem a sua espiritualidade ou animalidade, a um corpo sem defesas ou próteses, vulnerável, ao corpo-casa, ao corpo-corpo, como vêm fazendo performers atuantes a exemplo de Marco Paulo Rolla (MG), Ana Montenegro e Maurício Ianês (SP). No cenário internacional, Ron Athey (EUA) e Franko B (Reino Unido), entre outros, promovem performances radicais em que o corpo e seus fluidos são manipulados para provar que é possível ser sinceramente livre, ao menos no modus faciendi do artista.

Não é raro, contudo, haver reações iradas da plateia ou mesmo de especialistas em arte e cultura mais conservadores, diante do corpo nu. Este ainda move e incomoda, e é por esse motivo que sua presença se torna mais interessante em tempos atuais. Pois, se ele é tido como um recurso déjà-vu totalmente absorvido pelo sistema da cultura, por que na performance continua sendo elemento de estranheza que constrange? E, ainda, se a nudez não é atestado de qualidade artística, nem da falta dela, por que permanece como um diferenciador aos olhos dos críticos? Despido ou vestido, o performer deve ser capaz de construir uma proposta madura, consciente, consistente, e é quando isso falha que então temos uma performance vazia, despossuída de potencial transformador.

Uma outra questão em torno da produção de performance atual é que de repente se voltou a falar disso como se fosse uma novidade. De fato, são percebidas uma maior atividade e atenção de artistas, público, teóricos e instituições para a prática performática nos últimos dez anos, mas isso não significa que esta ressurgiu como uma nova forma artística.

No campo da cultura contemporânea, deparamo-nos com uma situação que afeta todo tipo de produção de arte, inclusive a performática, que é a síndrome do remake ou do DJing, apontada por Nicolas Bourriaud.2 Ela faz com que tudo hoje seja reinterpretação, ressignificação de procedimentos e conceitos já propostos. Desse modo, o artista é um sujeito que recolhe fragmentos de referências existentes para daí construir algo “novo”, sendo o seu discurso o que traz o instigante elemento renovador para o cerne da obra, não importando mais o formato/suporte a ser usado.

Em um brevíssimo panorama histórico, a partir dos anos 1960 são notadas diversas mudanças no procedimento performático. Enquanto na década de 1970 se vê uma série de ações de cunho conceitual, crítico e político, nos anos 1980 há uma dramatização da prática e seu progressivo arrefecimento até meados dos anos 1990, quando se inicia a era das altas tecnologias da informação. No final do século XX, temos a consolidação de uma cultura de massa hipermidiática, materialista, vigilante, individualista e esteticamente acachapante, e seu reflexo na produção de arte se dá, entre outros aspectos, com o retorno ao político, ao coletivo e finalmente ao corpo como tema e suporte da obra. Então, a performance arte ressurgiu, novamente como uma necessidade de manifestação provocadora e libertária.

Pode ser que a atual atenção sobre a prática performática nas artes sofra uma saturação e sua atividade diminua em algumas décadas, para retornar com força em um outro ciclo mais adiante. Mas isso não podemos prever. De certo, a performance arte aponta hoje para a principal condição e contradição da própria arte contemporânea: o fato de ela ter ficado tão próxima da vida que a fronteira com o ordinário se tornou quase invisível.

Para ilustrar esta ideia e encerrar essas reflexões, cito o professor e diretor teatral Richard Schechner, criador do departamento de Estudos de Performance da Universidade de Nova Iorque (NYU):

“Hoje, dificilmente existe atividade humana que não seja uma performance para alguém, em algum lugar. De um modo geral, a tendência do século passado foi dissolver as fronteiras entre performance e a não-performance, a arte e a não-arte. De um lado desse espectro está muito claro o que é performance, o que é uma obra de arte; do outro, essa clareza não existe mais.”3

1.FISCHER-LICHT, Erika. A cultura como performance: desenvolver um conceito. In: COUTINHO, Liliana. Revista Marte, Lisboa, n. 3, p. 12. [Editorial].

2.BOURRIAUD, Nicolas. Pós-produção: como a arte reprograma o mundo contemporâneo. São Paulo: Martins Editora, 2008.

3. SCHECHNER, Richard. O que é performance. Revista O Percevejo, Rio de Janeiro, n. 12, p. 25-50, 2003.

1 Comment »

  1. […] Performar, Performando […]

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