September 25, 2010

Gil Vicente: Arte Fora da Ordem / ENG

Texto publicado no catálogo do artista lançado na Bienal de São Paulo em Setembro de 2010.

Published in the artist’ catalog launched at the XXIX  São Paulo Bienal in September, 2010 (english version below)

Arte Fora da Ordem

“Por onde andam os subversivos?” Ao lançar esta questão na rede social onde possuo 570 amigos que mal conheço, a primeira resposta veio em seguida: – No poder. Flanando na internet, se lê que a política e o entretenimento nunca estiveram tão juntos como atualmente e que dificilmente irão se separar. “Independente da causa em questão, grande parte da comunicação política contemporânea segue a linguagem do espetáculo, como forma de guerrilha. A fórmula serve e é aplicada tanto para fins sociais relevantes como para qualquer outra coisa sem cabimento, por movimentos diversos e até por instituições como os partidos”.[1] Enquanto a tática de guerrilha vira instrumento de marketing, no Brasil indignar-se com a situação política e social está em desuso.

Indignado, porém, Gil Vicente decide ir na contramão desse padrão e repudia a linguagem do espetáculo para posicionar-se, subversivamente em forma e conteúdo, contra as estruturas da política e da cultura de massa, interligadas na contemporaneidade. Em sua ira e desilusão com o modo operacional de um sistema que considera maldito por que, como crê, apenas alimenta desigualdades e injustiças, o artista resolveu, em 2005, inventar uma persona terrorista para alvejar, com una arma gráfica, líderes arquetípicos de uma ordem mundial em crise aguda.

Ao contrário do que a primeira leitura das obras sugere, Gil se coloca, de fato, num “estado de vítima”[2] para acertar as contas com as hipocrisias, mentiras e manipulações de estadistas e representantes do Povo. No jogo que mistura realidade e ficção, o artista-vítima não panfleta ideologia partidária, nem faz julgamento moral ou religioso de qualquer ordem. Na concepção niilista de quem viu a utopia de ações movidas pelo discurso da esquerda marxista Pós-2ª Guerra, dar lugar à atual fome de destruição movida a fé, petrodólares e narcoeuros, Gil Vicente, poeta e cidadão, sugere a implosão sumária do establishment e da sua ética em situação de irrecuperável ruína.

Por sua vez, no plano da visualidade estética também pode-se creditar a Inimigos um papel de inssurgente. Seus desenhos transgridem tanto a etiqueta do politicamente correto, quanto as tendências de mercado que privilegiam ora o conforto de discursos minimalistas acríticos, ora a literalidade fácil de obras que repaginam ad nauseum o Pop  e outros estilos, modernos ou pós.

Estes desenhos, no entanto, possuem o traço e a narrativa de impacto dos quadrinhos policiais transmitindo, em cada um deles, a tensão contida na cena imediatamente anterior ao grande desfecho da estória. Porém, por serem diretos e literais, por que narrativos, a sofisticação de Gil Vicente se mostra justamente na dispensa do uso de metáforas, ainda que utilize amplamente o recurso da representação.

O grande paradoxo desta série porém, está no fato de que, ao levar tais desenhos a público, o artista exerce todo o Poder que o status quo lhe confere. Gil Vicente aproveita-se da posição privilegiada de profissional inserido num circuito intelectual respeitável, para trocar o estado de Vítima na ficção do desenho por um estado de Representante social na vida real. Sem desfaçatez e atento, ele se utiliza abertamente do sistema – também político – da instituição de arte, para fazer sua obra circular semi protegida de possíveis censuras e ataques das esferas poderosas.

Longe de culpas, Gil Vicente é um ateu em busca da fé na consciência política transformadora, hoje apaziguada pela midiatização da cultura e pulverizada em centenas de coletividades ativistas as quais, pela pluralidade de motivações e modos de atuação, nem sempre conseguem tecer uma alternativa efetiva contra o sistema de poder, cada vez mais controlador e onipresente.

Em Inimigos, o artista dá um tiro de advertência para o alto, como um guerrilheiro que se move na possibilidade de fazer terrorismo sem sangue, através da imagem e da poesia. Representando-se na execução de um ato limite, ele urra contra Estados ignóbeis e acorda para a luta os jovens e adultos anestesiados pelo consumismo e pelo prazer imediato. Assim, os desenhos de Gil Vicente advertem que a arma mais subversiva existente, mesmo com todos os sustos e espetáculos, consumos e tecnologias, é a capacidade de reflexão e de gerar sonhos. E que diante do menor risco dessa capacidade ser tolhida deve-se pressionar, sem hesitar, o botão  Indignar-se.

Daniela Labra – Set/2010

[1] FRANZ, Tiago. In: http://perspectivapolitica.com.br/tag/ativismo-politico/ acessado em 15/07/2010

[2] FARIAS, Walquíria. “O Energúmeno”. Texto de catálogo. 2005

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Art outside the order of things

“Where have all the subversives gone?” When I threw this question onto my social network, where I have 570 friends who I hardly know, the first answer that came back was: – In power. Wandering around on the internet, you can read about how politics and entertainment have never been so close as they are today and how unlikely it is that they will ever become separated. “Irrespective of the cause in question, much of contemporary political communication is immersed in the language of showbiz razzmatazz, like some form of guerrilla warfare. This particular formula serves for both relevant social purposes and anything else as equally ill-fitting, and is applied by various different movements and even by institutions, such as political parties”.  While guerrilla warfare tactics are turned into marketing tools, in Brazil the act of becoming indignant about the social and political situation has simply fallen by the wayside.
Nonetheless, Gil Vicente, indignant, decides to go against the tide and repudiate the language of showbiz razzmatazz to position himself, subversively, both in form and content, against the structures of politics and mass culture, so intertwined in contemporary life. In his anger and disillusionment with the operational mode of a system, which he condemns because, as he firmly believes, it merely serves to feed inequalities and injustices, the artist decided, in 2005, to create a terrorist persona who, armed with the drawing of a weapon, would target archetypical leaders of a world order in acute crisis.
Contrary to our first reading of the series, Gil in fact positions himself as the “victim” , so as to settle the outstanding accounts of hypocrisies, lies and manipulations wrought by state leaders and representatives of the People. In a game that blends reality with fiction, the artist-victim does not set out to create any kind of ideological propaganda, nor any type of moral or religious judgment. Within the nihilist conception of those who witnessed the Utopian actions moved by the Post-Second World War discourse of the Marxist left, leading to the current hunger for destruction moved by faith, petrodollars and narco-euros, Gil Vicente, poet and citizen, suggests a simple implosion of both the establishment and its ethics, which have run into irretrievable ruin.
In turn, in terms of visual aesthetics, it is also possible to credit Enemies with an insurgent role. His drawings not only violate the ethics of political correctness, but also the market tendencies that privilege both the comfort of minimalist uncritical discourse, as well as the easy literal quality of works that repaginate Pop and other styles ad nauseam, either modern or post-.
These drawings, however, have the traits and narrative impact of a detective comic strip, which in each and every case transmits the tension contained in the scene immediately preceding the grand finale of the story. However, by being direct and literal, since after all, these are narratives, the true sophistication of Gil Vicente is revealed by the manner in which he dispenses with metaphors, since he makes extensive use of representation.
The true paradox of this series however, is in the fact that by bringing these drawings to the public eye, the artist is exercising all the Power that the status quo confers on him. Gil Vicente takes advantage of his privileged professional position inside a respected intellectual circle, to transfer his state as Victim in a fictitious drawing to the state of the real life social Representative. Devoid of effrontery and yet attentively, he blatantly uses the institutional system – also political – of art, in order to render his work circular, semi-protected from the possible attacks and censure by those in the spheres of power.
With absolutely no sense of guilt, Gil Vicente is an atheist in search of faith inside transformative political consciousness, today appeased by the mediatization of culture pulverized over hundreds of collective activists who, through the plurality of motives and modes of action, are not always able to weave an effective alternative against the systems of power, which are increasingly controlling and ubiquitous.
In Enemies, the artist fires a warning shot into the air, like a guerrilla moved by the possibility of provoking bloodless terrorism, through images and poetry. By representing how he has been stretched to the limits, he howls at the ignoble States and calls to battle all the youths and adults anesthetized by consumerism and instant pleasure. Thus, Gil Vicente’s drawings stand as a warning that the most subversive weapon available, even with all the thrills and entertainment, consumerism and technologies, is the capacity to reflect and generate dreams. And that whenever this capacity is slightly threatened in any way at all, then it is essential to press, unhesitatingly, the Indignation button.

Daniela Labra

 

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