January 16, 2011

Entrevista com Carlos Garaicoa

Entrevista com Carlos Garaicoa por Daniela Labra (Outubro de 2010).

Publicada na Revista Dasartes # 13, Dez/2010

Daniela Labra – Em primeiro lugar, gostaria de você falasse sobre  seu projeto na 29a Bienal de São Paulo, estas pequenas esculturas, as jóias.

Carlos Garaicoa – É uma obra do ano passado, de 2009, mas realmente o primeiro projeto dela foi elaborado em 2005, com outros materiais. Nunca tinha sido executado, mas eu já tinha a idéia de revisar alguns centros de tortura, de inteligência militar, edifícios que tiveram uma história violenta em relação à sociedade. E finalmente acabou sendo este projeto das jóias, a idéia do material absolutamente rico, atrativo, que tivesse um histórico na relação algo faustosa do ser humano com estes objetos de desejo, e por outro lado com lugares que são de certo modo ocultados, limitados à informação pública; um pouco esta idéia que os Estados têm de esconder certa informação e certos atos – neste caso repressão e violência contra o ser humano em geral.
As jóias são todas peças em prata. Passamos por vários processos que envolviam outros materias mais ricos, mas acabamos ficando com a prata. Não chega a ser o ouro, mais implicado no tema da avareza e da cobiça. Eu quis desenvolver um pouco a idéia da jóia da Coroa,  parafraseando que o que há de mais desejado são as jóias da Coroa – no caso da Coroa Inglesa que é muito conhecida, ou estas jóias faustosas como a da Coroa do Czar, e também transmitindo um pouco a idéia da presença do Estado.

DL – Uma característica predominante em sua obra é o silêncio, às vezes bastante incômodo, como base de uma poética sutil, e também de uma certa melancolia. Nesse contexto, afora as fotografias, reparo que a presença do ser humano é escassa. Então eu te pergunto,  pensando nas jóias: qual o lugar do ser humano na tua obra, quem habita as tuas cidades e os teus edifícios?

CG – Veja, são projetos bastante conceituais. Quando se usa a arquitetura como sujeito principal, eu penso que estas são habitadas precisamente pelo espectador. São peças que estão trabalhadas ou criadas num esquema conceitual puro, são discussões de idéias mais do que sobre o habitar. Eu considero que muitas vezes as minhas arquiteutras são conceitos. Uma discussão que eu já tive com muitas pessoas é sobre se eu quero construir ou não – e eu realmente prefiro pensar que são idéias, que cada um destes edificios propõe uma idéia muito concreta que o coloca de frente ao espectador, à pessoa que está tecendo uma relação com a obra naquele momento, nascendo ali uma relação que mais do que habitar o espaço fisico habita a idéia, o conceito mesmo, fazendo evoluir um pensamento, um posicionamento crítico do espectador, que o faz confabular com a obra.

DL – Em uma entrevista no site da TATE, executada quando fizeram um estudo de caso sobre sua obra Carta aos Censores, você fala de como se sente um cigano, circulando muito pelo mundo e enfrentando a dificuldade de compreender um contexto novo para logo ter que produzir algo para ali. Esta é de fato a realidade do artista globetrotter de hoje. Como é o seu processo e quais são as tuas estratégias de aproximação a uma realidade estrangeira quando tem pouco tempo para conhecê-la?

CG – Cada vez me separo mais dessa prática, a qual eu estava muito ligado no começo, como artista. Sinceramente, a cidade tem que falar para você. Há lugares que você chega e são diretos, são cidades ricas, tem certa energia, ou que você já conhece. Evidentemente que todas mudam, mas é cada vez mais certo que me interessa menos que me convidem para São Paulo e eu tenha que fazer uma obra em quinze dias – já fiz isso. Há uma obra minha que foi feita com peças de velas que se derretem, foi pensada originalmente para um contexto específico mas depois eu parei para ver a história do lugar. Às vezes tento fugir um pouco para estudar e confrontar-me com coisas que me interessam muito. Me interessam as contradições dos lugares historicamente, politicamente. As vezes você chega pela primeira vez numa cidade e te encanta tanto, te fala tanto, que você é capaz de elaborar uma idéia rapidamente, ao contrário de quando se está vivendo nela e então se deixa de ter essa relação. É o que acontece comigo em Madrid. Já fiz coisas estando fora dela falando precisamente do contexto e agora estou há 3 anos morando aqui e acho que ainda não nasceu uma obra da minha estadia em Madrid, apesar de achar que estou falando de coisas que vêm da experiência de estar aqui. Estou falando de experiências globais, que tratam de se aproximar de um fenômeno muito generalizado, que é a idéa da repressão, do modo que somos constantemente observados pela inteligência militar – esta é uma reflexão que foi feita aqui em Madrid. Eu penso que as estratégias têm muito a ver com a relação específica com as cidades. As obras que tenho feito com mais intensidade como em Nova York, na África, em Arnheim na Holanda, tem a ver com uma cidade que tem uma relação intensa comigo. Subjetivamente estamos trabalhando certas idéias que coincidem com um sítio específico. Neste momento estamos elaborando um projeto muito grande, um edifício na Inglaterra que está no meu website, uma biblioteca pública, e a origem desse projeto era uma escultura pública que virou um projeto super massivo, o qual já levamos 5 anos elaborando.

DL – E quando você esteve no Rio, quanto tempo passou aqui?

CG – Eu morei por 8 meses no Rio de Janeiro, entre 2006 e 2007, convidado por uma coleção particular, Teixeira de Freitas. Daí saiu uma série de projetos, obras que passaram pela Caixa Cultural, no Rio, e no CCBB, em outras cidades. A obra consistiu numa escultura que era uma biblioteca de livros brasileiros com concreto e tinham marcas de balas nas contracapas dos livros. Foi uma reflexão sobre a minha temporada ali. Houve outras obras que surgiram posteriormente à minha saída do Brasil, mas todas foram elaboradas no Brasil. Uma delas é uma cidade feita com torrões de açúcar, criada para se destruir. É uma obra que reflete acerca da mutabilidde das cidades. No Rio isso é muito visível, de alguma maneira há uma cidade consumindo a outra, a favela que está presente no meio desta cidade e como elas vão convivendo e transformando uma à outra. Há uma obra dos edifícios de arquitetura brasileira, e também há as fotos… Uma estadia longa, ainda mais numa cidade como o Rio que é tão particular, cheia de contradições e problemas humanos, que nos fazem pensar constantemente. Isso sim me faz falta, cidades que tenham esse ponto. Madrid tem isso, é uma cidade que todo o tempo está te presenteando com algo novo.

DL – Em matérias e entrevistas que você concedeu eu percebi que geralmente te colocam o rótulo de Arte Política. Como você recebe esse rótulo atualmente? Você acredita que este pode ser reducionista ou ao contrário, que pode ajudar a expandir os horizontes conceituais de uma obra?

CG – A mim parece que pode ser muito reducionista. De fato, há lugares onde estive recentemente, como na Flórida onde expus, que são ainda pior, por causa da situação política com Cuba. Como nos olham e tal… Toda a imprensa e a projeção do meu trabalho eram como se eu fosse o salvador da discussão política. E justamente, por detrás da minha obra há toda uma discussão que tem a ver com o desenho, com a própria linguagem. Eu penso que a linguagem, além da discussão social que possa trazer implícita, também é um grande mote todo o tempo, elaborando problemáticas que concernem a ela mesma. E na parte visual há problemas constantemente; não estamos aqui para fazer discursos políticos, para isso já temos políticos, bons e ruins. Na arte temos de alguma maneira este ponto onde se pode projetar criando essas tensões, vamos além das tensões políticas, as tensões sociais, para ser um pouco mais amplo. Mas também se está criando uma tensão sobre a história, digamos, no caso das artes visuais, da beleza mesma,  não da beleza no sentido tradicional, mas nesse sentido de engrandecer inclusive a sociedade e os discursos, e a aproximação que temos da realidade. Este é o outro ponto que está ali. E eu luto para que a minha obra não fique nunca só no discurso visual, sempre estou pesquisando materiais e formas de elaborar estas idéias. Uma obra como a da Bienal de São Paulo não seria nada se não fosse um objeto refinado de certo modo. Penso que tem muito a ver com o material a escala da obra, com o modo de disposição dela no espaço, onde realmente repercutem outras tantas idéias. Esse rótulo me persegue muitíssimo mas eu também tento fugir dele constantemente com a própria obra.

DL – Sim, imagino que não deva ser fácil. E nesse sentido como você pensa a disciplina História? Percebo que esta é quase que um fio condutor da sua obra…

CG – Quando trabalho com a fotografia eu estou comprometido sempre a falar da memória, da memória individual e coletiva, e de alguma maneira tratar da cidade, de repassar os vestígios do espaço físico da cidade, e isto de antemão eu tenho enfrentado. Fazer arte hoje implica em ser uma pessoa cada vez mais informada, não somente sobre o que está acontecendo ao teu redor, mas também sobre de que maneira você pode se engajar em toda essa voracidade da chamada História que você fala.  Isso é muito importante para os artistas, além da sua obra ser ou não ser política. Esta precisa de um posicionamento crítico e de auto-crítica também com a sociedade contemporânea. Realmente estamos vivendo um momento super louco e super agitado onde a obra ficaria algo vazia se não tivesse isso. Sou uma pessoa assim, tento ler o jornal diariamente, de me colocar nessa tensão. Deve-se estudar a sua sociedade, mesmo que seja o momento onde você se encontra agora mesmo: ver como são construídas algumas noções das História do teu país. Isso faz você constantemente se contrapor a este passado suposto, emblemático, e a essa possibilidade de futuro que se tem por construir. Nós cubanos viemos de uma sociedade tão espinhosa com estes temas de uma missão histórica, fomos o elemento, ou supostamente acreditamos ter sido em algum momento o elemento de uma mudança social radical, mas estamos sempre muito carregados com isso. Com relação à arte, não há uma obra na qual você saiba que está criando agora e que é pura. Eu sou uma pessoa que sempre tenta se aproximar muito do que já foi feito e do que está acontecendo, estudando muito, e eu acho que isso dá um peso ao trabalho e o torna um pouco atemporal também; essa possibilidade de estar olhando para trás e ver a estrutura disso que chamamos História e a estrutura da sociedade contemporânea, e inclusive vivendo nesse impasse constante de que ainda com a arte podemos fazer algo em direção ao futuro. Eu acho que a arte realmente te posiciona historicamente. Eu não acho que seja uma coisa massiva, da genialidade da arte e muito menos; eu sou um elemento muito imbricado na história do meu país, nas situações que eu passei por aí, a necessidade de migrar; a necessidade de me mover; nas necessidades da história da arte mesma. De certa maneira quando estou dando aula eu me vejo como parte de um território amplíssimo do que sucedeu, sucede e sucederá. Eu penso que esse saber é um elemento em toda a equação que te faz sentir historicamente acordado. Então eu penso que também sem ser um estudioso de História, ela me interessa sim, pois me parece que há de algum modo uma construção que vivemos diariamente com toda a informação que recebemos, com toda esta suposta História que temos vivido e que nós, desde a arte, da ficção, também podemos atacar: você faz o seu pequeno contato, sua pequena narração, seu pequeno conto – que é o que faz um pouco cada ser humano para violentar um pouco essa suposta História com tais pequenas anedotas. E é isso que cada obra é. E a minha aproximação às cidades e à arquitetura é isso também: ela está aí inscrita, construída, existe, mas eu posso acrescentar essa coisa que a faz variar um pouquinho.
Então eu acredito nesse encontro das pequenas narrações, pequenas estórias pessoais, privadas, muito íntimas, e na sociedade, onde se vive escutando-as, estudando-as, tendo que enfrentá-las e se posicionar. Pois fazer arte se trata do fenômeno de posicionar-se, e nesse sentido é algo muito político realmente, quando se assume tal posição.

site do artista: http://www.carlosgaraicoa.com/

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