Coletivo Filé de Peixe: Mídia Pirata na Economia da Arte

Mídia Pirata na Economia da Arte*

Por Daniela Labra

* publicado na revista comemorativa dos 5 anos do coletivo filé de peixe, setembro de 2011.

Quando a gigante japonesa Yamaha lançou em 1989 o primeiro aparelho de queimar cds, não imaginava estar dando armas para o Terceiro Mundo bombardear a ordem mundial, até transformar radicalmente sua base mais importante: a economia. Hoje, mais de duas décadas depois, a pirataria está em todo o lugar e faz de nós todos piratas consumidores…

A batida grave do Funk carioca soa bem com a voz da cantora do Sri Lanka em uma boate de Berlim. Em Nova York, a sensação da temporada é a retrospectiva do artista plástico chinês Cai Guo-Qiang, enquanto em Lisboa o público branco não é bem vindo pelos africanos que organizam bailes de Kuduru. No panorama cultural da atualidade, as periferias infiltradas nos tradicionais berços cultos ocidentais dão o traço do multiculturalismo emergente das “novas racionalidades” (SANTOS, 2000. P 121), as quais se impõem à filosofia européia e norte americana, rareando as noções de centro e margem no mundo.

A nova racionalidade, como definida por Santos, origina-se nas classes sociais pobres que, na tentativa de conseguirem inserção como consumidores, inventam inúmeras estratégias para subverter as normas e estruturas de produção e distribuição de bens de consumo reguladas pelos países dominantes. Em busca de seu próprio nicho consumista, com preços compatíveis a seus salários, a “classe de baixo” tem conseguido nesta primeira década do século XXI corromper sistemas que já foram totalmente controlados por multinacionais poderosas. Com ferramentas precárias, foram alterando agressivamente esquemas mercantis formais até transformá-los no que hoje é o mercado paralelo sustentado pela informalidade, presente na totalidade dos países em desenvolvimento.

Conhecido como comércio pirata, o mercado informal sobrevive da comercialização de bens copiados e falsificados, e tornou-se um estado paralelo de difícil combate. Impulsionada pela evolução das tecnologias da informação e da ciência, essa indústria clandestina vem se incrementando em especial nas nações com maior população de pobres, e engloba da produção de calçados a dvds com os últimos lançamentos de Hollywood. Neste último segmento, que se dedica à pirataria de produtos em suportes digitais reprodutíveis, estão incluídos não apenas filmes mas também cds de música e games, consistindo a face mais lucrativa desse mercado, que como um todo contribui com impostos Zero.

Nos últimos anos, em todo o mundo Estados vêm agindo para coibir o comércio de atacado e varejo, desbaratando rotas de contrabando, prendendo comerciantes, realizando campanhas de conscientização, entre outras ações contra a pirataria. Contudo, os resultados obtidos na inibição do consumo desses produtos ainda são pífios.

Diante do insucesso dos atos de repressão à pirataria mundial, os representantes de multinacionais, em especial as ligadas à indústria de entretenimento e softwares, se desesperam. De acordo com Orlando Diniz, presidente da Fecomércio-RJ,

“A pirataria é uma verdadeira epidemia que se alastra. Com o aumento do poder de consumo da classe C a tendência é que o problema se agrave, caso não haja um grande trabalho de conscientização”. #

A instituição presidida por Diniz financiou a última pesquisa acerca do assunto no Rio de Janeiro, divulgada no segundo semestre de 2010. O estudo revelava que hoje no país há 70,2 milhões de pessoas que consomem produtos falsificados, cerca de 14 milhões a mais do que em 2006, quando o número estava em 56,4 milhões. O produto campeão de vendas ainda é o cd, com 79% das vendas. No entanto, os dados mostravam que o dvd vem ganhando espaço muito rápido, tendo passado de 35% em 2006 para 77% na preferência dos consumidores, em 2010. Na sequência, os produtos mais consumidos são óculos (com 7%); calçados, bolsas ou tênis (7%); roupas (6%); relógios (5%) e cigarros e canetas (4%).#

Sustentando a afirmação do presidente da Fecomércio, os dados finalmente atestam que de fato os consumidores dessa economia no Brasil, são oriundos das classes mais pobres e cada vez mais numerosos, formando uma massa que fomenta com força o fenômeno descontrolado da multiplicação de camelôs físicos e virtuais nas periferias do mundo.

Já com relação aos fascinantes números da economia pirata em escala global, estudos ainda mais recentes foram apresentados em março de 2011, no livro Media Piracy in Emerging Economies. Desenvolvida pela organização norte-americana Social Science Research Council, com a colaboração de especialistas de diversas áreas que discutem o assunto, o Brasil aparece em destaque, com um capítulo exclusivo assim como a Rússia, Bolívia e Índia entre outros.

O estudo demonstra que os mercados pirata nos países em desenvolvimento –  justamente onde mais crescem – têm como maior estímulo os preços dos produtos copiados, os quais custam em geral de duas a 5 vezes menos do que os similares originais. De fato, ao se comparar o preço de um cd de fábrica nos EUA e no Brasil, a constatação é de que o pirata daqui custa o mesmo que o original de lá.

Assim, conclui-se que a pirataria move-se obviamente grças às normas excludentes do capitalismo tardio, e não tanto pela escassez de políticas repressivas ou de investimento em campanhas educativas para o consumidor de baixa renda. Definitivamente, ao desejar acesso às marcas e modas dos outdoors e da TV, o cidadão pobre muitas vezes só tem alternativa de consumo no mercado informal.

No processo de invenção dos mecanismos de acessibilidade a bens diversos e produtos culturais pelas camadas pobres, éticas mercantis e estéticas foram forjadas reinventando cadeias de arrecadação. O caso mais notável, por sua vez, está na indústria fonográfica pirata. Ali, os novos métodos de recolhimento dos direitos do autor, baseados no sistema de shows e não mais na venda de discos, impulsionou o surgimento de astros, produtores, clubes e sucessos, que saem de centros de pobreza para muitas vezes alcançarem aclamação nacional indiscriminada.

Este é o caso por exemplo dos notórios fenômenos do Funk Carioca, no Rio de Janeiro, e do Tecno Melody em Belém do Pará, que formam indústrias paralelas de entretenimento ativas e rentáveis.  Nestes mercados, como descrito anteriormente, o artista não arrecada mais pela venda de cds produzidos a partir de um contrato de trabalho. Apoiado no sistema que usa as faixas sonoras como ferramenta de divulgação e atração de público para grandes shows populares, tanto o autor como os interprétes têm suas fontes de renda oriundas dos eventos que refletem o sucesso das vendas no mercado informal.

Para compreender – e até para celebrar – os efeitos desestruturadores da economia pirata sobre o esquema dominante de distribuição de bens culturais em mídias digitais, artistas e intelectuais vêm abordando o assunto de muitas maneiras. Alguns se empenham em estudos livres ou acadêmicos, outros partem para a prática, como os músicos famosos que disponibilizam suas obras na internet.

No meio da arte contemporânea, coletivos de artistas pelo mundo têm se dedicado à reflexão e produção estética a partir do assunto. Naturalmente, ao tocarem no tema discutem também a atuação das periferias globais e as problemáticas referentes a patentes e direitos autorais, entre outras questões relacionadas às quebras de paradigmas trazidas pela nova ordem econômica e cultural mundial.

Com uma pesquisa que vai nessa direção, surgiu no Rio de Janeiro o Coletivo Filé de Peixe, formado pelos cariocas Alex Topini, Fernanda Antoun e Felipe Cataldo, em 2006. Composto por indivíduos de formação diversa (sociologia, turismo e cinema), o grupo começou a construir seu trabalho a partir da indagação acerca do que poderia ocorrer caso o estratificado mundo da arte e suas regras auráticas, fosse infiltrado pelos procedimentos do mercado informal.

Partindo desse questionamento então, o Filé de Peixe iniciou uma série de ações chamadas de “Piratão”. Estas, se dedicam à apropriação da estratégia de venda e da estética dos camelôs voltados à pirataria no Brasil, e têm como objetivo a disseminação de obras de videoarte através da comercialização de objetos-dvds em espaços públicos e eventos de artes plásticas.

Para defender a visualidade e o conceito de realização “Piratão”, o Filé de Peixe iniciou a produção de coletâneas de videoarte em objetos-dvd numerados, nomeados ENCARTADOS,  inspirados visualmente nos dvds pirata das ruas. Os ENCARTADOS reúnem vídeos de artistas nacionais e estrangeiros, consagrados e iniciantes, integrantes desavisados e compulsórios do acervo “Piratão”, que por sua vez é uma base de vídeos constantemente atualizada. Francamente interessados na crítica ao sistema mercantil e fetichista da arte, o grupo decidiu enfim que cada ENCARTADO fosse um múltiplo de tiragem limitada, à venda apenas durante as ações do grupo.

No desejo de promover um sistema de circulação alternativo eficaz para obras de videoarte, o Filé de Peixe reproduz livremente trabalhos de terceiros. Para tanto, enfrenta a possibilidade de acusação de promoção de atos criminosos, escudado no próprio discurso conceitual:

“Não estamos fazendo pirataria, e não estamos vendendo o trabalho de ninguém. Estamos vendendo o nosso trabalho, que entre outras coisas, é uma apropriação de centenas de trabalhos de videoarte. Os artistas apropriados são, na quase totalidade, artistas contemporâneos, e justamente por isso, acreditamos que entendam bem sobre os conceitos de apropriação.”#

Após 13 edições da ação “Piratão”, o Filé de Peixe conseguiu formar uma estrutura profissional que inclui uma copiadora simultânea de mídias digitais para a confecção dos objetos-dvd; equipamento de tv e dvd player para teste da mídia na hora da compra; um gradil para pendurar os ENCARTADOS, além de projetor e telão para a realização das “Sessões Pirata” – quando recortes do acervo de videoarte do grupo são exibidos ao público gratuitamente.

Para controlar a circulação de seus produtos e comprovar a eficácia de seu método de distribuição e democratização da videoarte, o Filé de Peixe exibe em seu site os números das ações já realizadas: graças ao “Piratão”, exatos 2.426 ENCARTADOS foram vendidos em diferentes eventos de arte pelo país, totalizando 5.376 vídeos difundidos.# O mais irônico no entanto – mas nem por isso inesperado, é o fato de que foi no camelódromo da Rua Uruguaiana, no Rio de Janeiro, onde o “Piratão” obteve menor sucesso de vendas.

Para o grupo, é evidente que a situação da videoarte hoje é emblemática na crítica ao culto da originalidade do objeto artístico, e sua visão como commoditie, tão persistente no sistema da arte. As ações do Filé de Peixe explicitam o estranho procedimento de numerar uma pequenina tiragem da obra executada para suporte digital reprodutível, para torná-la objeto único de inestimável valor. Nesse processo, que valida um video como peça única, o produto tem sua veiculação restringida a um público ínfimo e seleto, e por consequência tem apagado qualquer potencial artístico transformador que possa se desvendar no contato com maior número de espectadores.

Mas, se o capitalismo permite que assim seja, a tecnologia utilizada ao modo da racionalidade popular permite subverter essa lógica, como defende o Flé de Peixe. Através dela, no meio das artes plásticas cópias de obras em suporte digital podem circular amplamente sem prejudicar colecionadores detentores de supostos originais. Por outro lado, ainda, o autor também ganha duplamente pois além de receber seu direito autoral pela venda de galeria, não tem a obra restringida às coleções.

Ao apostar nessa situação como algo possível, Alex Topini argumenta que a única peça de fato original na aquisição de uma videoarte em dvd, é o certificado de autencidade da mesma. Para o artista,

“Não é possível precisar o que é cópia e o que é original quando se trata do vídeo. Ao baixar um video da sua câmera para a ilha de edição, você já está fazendo uma cópia. O vídeo se desloca/descola do suporte, mantendo sua capacidade de se oferecer na íntegra. A vídeoarte para se sustentar como obra no mercado de arte, necessita sempre de um outro que lhe confira unicidade: um objeto (no caso de vídeo-objetos), uma instalação onde ele esteja acoplado, ou por fim, um certificado. O certificado estabelece uma concordância entre o artista e  o colecionador de que aquele exemplar é uma obra de arte. No caso do vídeo, o certificado é o único autêntico por excelência, é um título, capaz de circular e se valorizar segundo lógicas próprias do mercado da arte. Além disso, a própria mídia irá ficar obsoleta e o conteúdo terá que ser  copiado para um novo suporte sucessivas vezes” #

Críticos e diretos, os membros do grupo têm a meta de continuar com a prática do “Piratão” no Brasil somente por mais poucos anos. A etapa seguinte seria circular pelo mundo distribuindo o material coletado ao longo das ações já feitas, continuar registrando os efeitos e discussões geradas a partir delas, e prosseguir com a contabilidade da distribuição dos vídeos. Espera-se, ainda, que as vendas de material não-autorizado repercuta de modo distinto em outras sociedades, onde a ilegalidade é infinitamente menor e mais reprimida, e o meio de arte muito mais profissional e hierarquizado do que no Brasil.

Conectado com questões da política e da sociologia, o Filé de Peixe realiza um trabalho onde o elemento artístico está principalmente na crítica ao sistema exclusivo da arte em contraponto a procedimentos e sistemas de exclusão caros no processo da reconfiguração da identidade brasileira na contemporaneidade. Assim, pode-se afirmar que o grupo debate o Brasil sem ser nacionalista e muito menos reivindicatório de um discurso local.

Se a “globalização não é um simples processo de homogeneização, mas de reordenamento das diferenças e desigualdades, sem suprimi-las” (Canclini 2005, p11), então o “Piratão” pode ser compreendido como um comentário sobre a contaminação das racionalidades dominantes européias, forjadoras do sistema e da História da Arte, pelas periferias que um dia colonizaram. Hoje, estas inventam novas estratégias de legitimação e distribuição de uma cultura emergente e peculiar, que marca pelo velocidade com que se dissemina e rearranja suas próprias referências.

Referências bibliográficas

CANCLINI, Nestor Garcia. “Consumidores e Cidadãos”. Rio de Janeiro. Ed. UFRJ, 2005

KARAGANIS, Joe (Org). “Media Piracy in Emerging Economies”. Social Science Research Council, 2011.  Disponível em http://piracy.ssrc.org

SANTOS, Milton. “Por uma outra Globalização – do pensamento único à consciencia universal”. Rio de Janeiro. Ed. Record. 3ª edição. 2000.

 

Websites

http://coletivofiledepeixe.com/

http://piracy.ssrc.org   Acessado em 5/03/2011

http://oglobo.globo.com/economia/mat/2010/11/30/cresce-numero-de-pessoas-que-compram-produtos-piratas-no-brasil-diz-fecomercio-923147821.asp . Acessado em 1/03/2011

http://pt.wikipedia.org/wiki/Yamaha . Acessado em 10/03/2011

Entrevista

Entrevista com Alex Topini a Daniela Labra. Rio de Janeiro, 23/02/2011

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