Daniel Escobar: A Nova Promessa

Exposição individual de Daniel Escobar na Galeria Zipper, de 3_9 a 5_10_2014, São Paulo.

De-Zipper-Fachada

A casa própria, o carro novo, a roupa cara, a obra de arte exclusiva. Quanto tempo leva para seu sonho material se tornar ruína? Em A Nova Promessa, Daniel Escobar aborda artimanhas ilusionistas da publicidade para apresentá-las como um dos motores do acelerado movimento de consumo e descarte que sustenta – e devora – o mundo atual. Esta individual comenta o lado patético da nossa condição humana resumida a consumidores na era pós-fordista, e traz no título também uma ironia ao próprio sistema da arte contemporânea, o qual tornou-se uma máquina provedora de objetos de alto apelo estético e baixa densidade discursiva, desejosa de jovens talentos.

A Nova Promessa remonta na fachada da Zipper a obra Anuncie Aqui, apresentada primeiramente no interior do Santander Cultural, em Porto Alegre, como um verdadeiro espaço de propaganda para aluguel. Desta vez, a operação comercial não ocorre e o outdoor surge como uma intervenção na arquitetura e no meio urbano. Porém, mesmo que desprovido de sua função primordial e legitimado como obra artística, essa peça se coloca como uma excessão no espaço público paulistano, onde está proibido por decreto instalar tal tipo de suporte. Exposta na rua, a placa se auto anuncia enquanto afirma a natureza da galeria e desvenda estratégias artísticas para re-inventar códigos éticos e criar mecanismos de privilégios pela arte.

Daniel Escobar equilibra visualidade pop com conceitos elaborados. Realizando trabalhos bem acabados e esteticamente agradáveis, ele seduz o espectador pela forma para logo inserí-lo no universo crítico do seu discurso, situado muito além da simples aparência.

Daniela Labra

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The New Promise

Home ownership, the brand new car, expensive clothes, a unique work of art – how long does your material dream last before it becomes ruins? In The New Promise, Daniel Escobar discusses the illusionistic tricks of advertising, presenting them as one of the drivers of the fast paced consumption and disposal trend, which sustains – and devours – the current world. This individual exhibit comments on the pathetic side of our human condition reduced to consumers in the post-Fordism era, and its title carries an irony to the very system of contemporary art, which has become a mass provider of objects of high plastic appeal and low discursive density, craving young talents.

The New Promise reassembles on the exterior facade of Zipper Gallery the work Advertise Here, which was first presented inside Santander Cultural in Porto Alegre, as actual rental ad space. This time around the commercial transaction is not completed, and the billboard emerges as an intervention in the architecture and in the urban environment. However, despite being devoid of its primary function and being legitimized as artistic work, it stands as an exception in the public space of the city of São Paulo, where public outdoor ads have long been banned by law. Exposed in the street, the sign advertises itself while asserting the nature of the Gallery, and unravels artistic strategies to re-invent ethical codes and to create privilege mechanisms through art.

Daniel Escobar balances pop visuality with elaborate concepts. Creating well finished and aesthetically pleasing works of art, the artist allures viewers through form, to soon after insert them in the critical universe of his speech, located far beyond simple appearance.

Daniela Labra

Centro Municipal de Artes Hélio Oiticica: Sob Nova Direção

Intervenção recuperada de Richard Serra no Hall do CMAHO.
Intervenção recuperada de Richard Serra no Hall do CMAHO. Foto: Gê Vasconcelos

Instalado nas imediações da Praça Tiradentes, Rio de Janeiro, no prédio do século 19 que abrigou o Conservatório de Música e o Conservatório Dramático Brasileiro, o Centro Municipal de Artes Hélio Oiticica há muito não fazia jus ao artista que lhe dá o nome. Inaugurado em 1996, por iniciativa da Prefeitura do Rio e em parceria com o Projeto Hélio Oiticica, responsável pelo espólio do artista, o centro teve até 2002 programação exepcional. Livros foram editados e houve exposições de nomes como Sean Scully, Richard Serra, Amílcar de Castro e Iole de Freitas. Porém, como é comum ocorrer, os projetos da instituição não tiveram continuidade, e ela foi se desmontando. Mudaram os gestores, a diretriz curatorial se perdeu, a livraria e o café fecharam. Em 2009, o convênio com o Projeto Hélio Oiticica encerrou-se, e o acervo de obras que ali ficava foi removido, dando início a uma inacreditável fase de decadência.

Tal como outros equipamentos culturais cariocas – e brasileiros, o CMAHO viveu anos de precariedade, sobrevivendo com exíguas verbas. Destituída de identidade, a instituição perdeu relevância, apresentando exposições ora boas ora medíocres, que ocupavam as galerias como barrigas de aluguel. O declínio impactou tanto o perfil institucional como a estrutura física do local, o que levou à interdição do segundo andar e seu lindo salão.

Contudo, em fevereiro de 2014 a pesquisadora formada em artes visuais pela UFRJ, Izabela Pucu, com experiência na coordenação do Parque Lage, assumiu a direção com um plano de gestão para estabelecer uma nova identidade à institução, profissionalizar sua atuação e valorizar seu patrimônio histórico. Assim, com o apoio da secretaria municipal de cultura, ações de recuperação estrutural e administrativa do CMAHO estão sendo implementadas, e já se observam mudanças: no térreo há uma pequena biblioteca, um café-bistrô, uma sala de estudos e uma intervenção na parede de Richard Serra, de 1997, restaurada após ter sido apagada durante reformas no prédio. No primeiro andar um depósito de entulho virou uma sala de aula equipada e uma segunda obra de Serra, antes escondida sob um teto de gesso, foi revelada.

Em agosto o CMAHO reinaugurou com o projeto Tiradentes Cultural que, em parceria com diversos equipamentos culturais vizinhos, oferecerá no primeiro sábado do mês um circuito de atividades pelo entorno. Atualmente o centro mostra quatro boas exposições do Foto Rio 2014, com obras de Bárbara Wagner, Rogério Reis, Maria Oliveira, Wim De Schamphelaere e Peter lucas/Arquivo Orizon Carneiro Muniz. Para a atual diretora o único modo de mudar o CMAHO era fazer a revolução. Ela já está acontecendo e em nome de Oiticica a cidade agradece.

*Texto publicado em O Globo, 25/08/2014

 

Arte, mercado e estratégias cínicas

Arte, mercado e estratégias cínicas*
*publicado em O Globo, 14/07/2014.

Banksy sells original work for just $60 in Central Park – video
Intervenção de Banky em Nova York: Banca de rua com venda de originais.

Há pouco inaugurei, como curadora, uma mostra do artista gaúcho Daniel Escobar. Seu projeto estudou jogadas de marketing de lançamentos imobiliários para discutir a manipulação dos desejos pela publicidade. Dentre as peças expostas, um outdoor em escala natural (9m x 3m) foi colocado como espaço de aluguel para anúncios comuns, mediante a assinatura de um contrato e pagamento da locação ao artista. A placa está instalada no mezanino da instituição realizadora, o Santander Cultural de Porto Alegre, que também recebe uma popular mostra de Vik Muniz curada por Ligia Canongia.

A exposição de Daniel me fez pensar em outros projetos artísticos que transbordam o circuito da arte para funcionarem como operações reais de negócios. Tais práticas, surgem como crítica a padrões de legitimação e circulação da arte nos anos 1960. Entre 1961-62 Claes Oldenburg realizou a série The Store (A Loja), onde questionava a arte como coisa preciosa confinada em museus. Após exibir em uma galeria de Nova York trabalhos inspirados em produtos de delicatessens e lojas de roupas, ele abriu uma loja de rua e abarrotou-a com mais de cem objetos para a venda, de bibelôs baratos a obras de arte suas. Depois de meses, Oldenburg fechou o estabelecimento e fez ali o Ray Gun Theater, um espaço para performances, que então simbolizavam experimentalismo e resistência ao mercado.

Continua…

Arte Brasileira de Quem?

Arte Brasileira de Quem?*

Na Copa as ruas ficam cheias de verde-e-amarelo e o brasileiro orgulha-se de sua nacionalidade. Futebol, dizem, é coisa nossa e o estilo do Brasil é ainda distinto. Em artigo recente neste caderno, Arthur Dapieve citava a importância que geralmente é dada no meio cultural à nacionalidade de uma obra ou autor, para então comentar como no esporte é nostálgica a noção de um estilo nacional de jogar. Uma vez que nos anos 1980 a globalização internacionalizou o mercado de trabalho e os times, os estilos foram se homogeneizando, e hoje insistir em um futebol à brasileira não faria mais sentido posto que pode-se, por exemplo, encontrar características sul-americanas em jogadores europeus e vice-versa.

Nas artes, a questão de uma identidade nacional pode trazer discussões parecidas. Em um sistema cultural globalizado que assiste à mistura e homogeneização de estéticas desde o final dos anos 1980, apontar características exclusivas da arte brasileira é no mínimo complicado. (Continua…)

Jonathas de Andrade. "40 Nego Bom é 1 real". 2013.
Jonathas de Andrade. “40 Nego Bom é 1 real”. 2013.

* Originalmente pulbicado em O Globo, Segundo Caderno, 30/06/2014.

Fotografo, Logo Vivencio

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Ao chegar na exposição do escultor australiano Ron Mueck no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, o visitante se surpreende com a apurada técnica do artista e com a multidão acotovelada para ver e fotografar os seus prodígios hiper-realistas. No grande salão, pessoas que até há pouco não sabiam quem era Mueck e muito menos o que acontecia no Museu, empunham câmeras e celulares para captar, vorazes, imagens dos trabalhos e selfies atropelando quem tenta apenas apreciar as obras.

Se o enorme público estreante no MAM é um fato novo e positivo, pessoas fotografando a si ou a conhecidos diante de trabalhos de arte já não são novidade. Dentro ou fora do espaço expositivo é fácil comprovar que câmeras digitais e smartphones não só popularizaram o ato fotográfico como fazem-no parecer um gesto necessário para desfrutar a vida. No caso de exposições, onde encontra-se lazer associado a reflexão e conhecimento por meio do contato sensível, intelectual e até físico do espectador com a obra, tento imaginar o que os visitantes desejam capturar com suas lentes e como essa mediação digital transforma a experiência estética in loco. Entendo que a natureza de muitas mostras tem apelo publicitário e espetacular, estimulando a incontinência fotográfica, mas observo que o excesso de registros substitui o processo, hoje difícil, de postar-se atentamente diante de um objeto artístico para apreendê-lo na sua forma e conteúdo. Afinal, uma obra de arte não se esgota na visão rápida. (Continua…)

*texto publicado em O Globo, em 5/05/2014

 

O Espectador Emancipado

obra de luiz gonzales palma, 2007
obra de luiz gonzales palma, 2007

Neste texto fundamental Jacques Ranciére discute o teatro na contemporaneidade. Ao pensar as artes cênicas no contexto da sociedade do espetáculo, o filósofo lança uma análise que de certo modo se encaixa nas artes plásticas.

Qual é a essência do espetáculo na teoria de Guy Debord? É a externalidade. O espetáculo é o reino da visão. Visão significa externalidade. Agora, externalidade significa a desapropriação do próprio ser de uma pessoa. “Quanto mais um homem contempla, menos ele é”, diz Debord. Isto pode soar antiplatônico. É claro que a principal fonte para a crítica do espetáculo é a crítica da religião de Feuerbach. É o que sustenta aquela crítica – a saber, a idéia romântica da verdade como inseparabilidade. Mas esta própria idéia se mantém de acordo com o descrédito platônico quanto à imagem mimética. A contemplação que Debord denuncia é a contemplação teatral ou mimética, a contemplação do sofrimento provocado pela divisão. “A separação é o alfa e o ômega do espetáculo”, escreve. Aquilo que o homem contempla neste esquema é a atividade que lhe foi roubada; é a sua própria essência que lhe foi arrancada, que se tornou alheia, hostil a ele, que consente com um mundo coletivo cuja realidade não é nada além da desapropriação mesma do homem.

Tradução de Daniele Avila para a revista digital de assuntos do teatro Questão de Crítica:

http://www.questaodecritica.com.br/2008/05/o-espectador-emancipado/

¿De qué hablamos cuando hablamos de resistencia?

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3nós3, Ensacamento de Cabeças de Monumentos, São Paulo, 1979.

¿De qué hablamos cuando hablamos de resistencia? é um ensaio de Néstor Garcia Canclini onde o autor analisa aspectos da recepção da arte contemporânea nas instituições culturais e na sociedade, ao mesmo tempo em que questiona certa inconsistência no modo como a noção de resistência é defendida por artistas e outros profissionais do sistema artístico e cultural. Canclini observa que enquanto noções como Capitalismo, Pós-colonialismo e Globalização são debatidos e confrontados com argumentos sólidos, a idéia de resistência surge em contraposição como algo quase mágico e heróico, sendo parcamente analisada.

Diante desse quadro, o autor discute como a arte pode ser politicamente eficaz na sociedade, e faz um contraponto à visão de arte e política de Jacques Ranciére.
Texto em espanhol.

Disponível em  http://nestorgarciacanclini.net

A utopia é possível – Revista Select 10, 01/2013

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A utopia é possível

por Daniela Labra (de Barcelona)

“O mundo está se preparando para uma metamorfose dos deuses. Abandonam-se os valores e arquétipos da cultura vigente e adotam-se novas formas de vida nascidas de outra visão do mundo”. Assim começava o manifesto da Instant City, uma das proposições do VII Congresso do ICSID – International Council of Societies of Industrial Design, ocorrido em outubro de 1971 na outrora idílica ilha de Ibiza – ou Evissa. O evento foi organizado pela Agrupació de Disseny Industrial del Foment de les Arts Decoratives (ADI/FAD), baseada em Barcelona, e teve um formato revolucionário, cujo objetivo era transformar um encontro profissional convencional em um acontecimento experimental e libertário, sem precedentes na Espanha – que amargava os últimos anos da obscura ditadura de Franco.

O congresso, que durou três dias, foi inspirado pela contracultura dos anos 1960 e fazia referência ao espírito livre da época, marcado por eventos artísticos, ativistas e políticos, que reuniam multidões de jovens nascidos no pós-guerra, desejosos de um mundo mais criativo, amoroso e pacífico.

Segue… http://www.artesquema.com/escritos/a-utopia-e-possivel-revista-select-10-012013/

The Brazillian experience – Puzzling Morality and the Effusive Body (part 1) @ performa magazine

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Franklin Cassaro. Festival Performance Arte Brasil, MAM RJ, 2011

The Brazillian experience – Puzzling Morality and the effusive body (part 1)

By Cristiane Bouger

When asked about her perspective on performance, the independent curator Daniela Labra stated with simultaneous confidence and perplexity: “Brazilians are performative. We deal with the body in a libertarian way, but we are also impregnated with moralisms.” The paradox raised by Labra can be identified in almost every aspect of Brazilian culture and social behavior. Nevertheless, her statement also addresses a poignant criticism to the conservatism of art institutions.

Labra has been working as a researcher and curator of performance works since 2004. In 2011 she conceived the Festival Performance Arte Brasil at the Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro–MAM RJ. The six-day festival received a grant from FUNARTE/MinC (The National Foundation for the Arts/Ministry of Culture) in the amount of approximately USD 125, 000. A curatorial team formed by professionals from different regions of the country composed the festival program, which presented the work of more than forty artists and art collectives.

Continua…

http://performamagazine.tumblr.com/post/42372234166/the-brazilian-experience-puzzling-morality-and-the

Entrevista com Daniel Lannes

Daniel Lannes. Desertor. Óleo sobre tela. 250 x 350 cm. 2011

Por ocasião da individual de Daniel Lannes na galeria Luciana Caravello, no Rio de Janeiro, em setembro de 2012, foi lançado o catálogo do artista com uma entrevista que abordou questões da história da arte, pintura contemporânea, processo de pesquisa e “brasilidades” possíveis.

Entrevista de Daniela Labra com Daniel Lannes

Galpão da EBA/Fundão/ Rio de Janeiro

14/08/2012

Daniela Labra – “Dilúvo” é o nome da sua exposição. Nós havíamos conversado sobre as referências que você traz no seu trabalho e o que te levou a escolher esse título. Acabamos chegando em um texto sobre a pintura de Leonardo Da Vinci.

 Daniel Lannes – Eu estava lendo para a minha dissertação de mestrado um livro sobre gêneros da pintura, e caiu esse texto nas minhas mãos, que é um recorte do Tratado de Pintura do Leonardo, e é um capítulo no qual ele descreve a forma de se pintar um dilúvio. É quase hilário, do ponto de vista didático, por que ele ensina o pintor a pintar, entre outras coisas, a linha do horizonte, como se deve pintar as montanhas à certa distância, como pintar o ar, e ele então ensina, de certa forma, como pintar um dilúvio. E a descrição do modo de pintar é uma coisa frenética, ele descreve uma série de acontecimentos catastróficos como enchentes, trovoadas, galhos voando, e no fim o texto acaba virando uma espécie de um conto, por que se torna tão confuso no final, tão minucioso e detalhado, que se torna quase um romance, por que são tantos os adjetivos e superlativos, e indicações do que colocar no primeiro e segundo plano, do que está acontecendo, caindo, que realmente é quase uma ficção. E eu achei curioso, não só o fato dele ensinar como pintar um dilúvio, mas também o fato do dilúvio ser, na época, também um tema recorrente – não só o Leonardo, mas Giorgione e o próprio Michelângelo, retratavam o dilúvio que, para a época, era a ideia de um fim, de que o mundo iria acabar em uma tragédia. Assim como hoje há essa ideia do fim em 2012, na época achava-se que o dilúvio era algo que estava para acontecer, havia essa espécie de premonição. Então era um tema.

 Labra – Falando em tema, esse é um assunto interessante quando falamos de pintura contemporânea… (SEGUE)