Seminário Depois do Futuro – Museu de Arte do Rio – 12 e 13 de Maio

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Seminário “Depois do Futuro: Ruínas e Reinvenções da Modernidade nas Artes Contemporâneas”

O evento reúne professores de distintas universidades do Rio de Janeiro, com atuações dentro e fora da academia, para refletir como as artes contemporâneas e as teorias culturais e estéticas que lhe cercam examinam a noção de futuro hoje. Longe se pretender um exercício de futurologia o seminário traz olhares sobre o presente e especula possibilidades de vida e arte em mundo em que dá sinais de colpaso
ecológico, político e social.

Local: MAR – Museu de Arte do Rio/ Escola do Olhar
Dias 12 e 13 de Maio de 2015
Horário: 10h-16h
Entrada Gratuita.
Lotação: 60 pessoas

Programação

12/05
10h Abertura – Daniela Labra – apresentação do projeto de pesquisa
“Depois do Futuro: Ruínas e reinvenções da modernidade nas
artes contemporâneas”.
10:20 Kátia Maciel (UFRJ)
11:00 Alessandra Vannucci (UFRJ/PUC-Rio)
11:40 Considerações finais da manhã
12-14h Intervalo
14:00 Paula Sibilia (UFF)
14:40 Ieda Tucherman (UFRJ)
15:30 Considerações finais
16:00 Encerramento do dia

13/05
10h Abertura – Daniela Labra
10:20 Frederico Coelho (PUC-Rio)
11:00 Guilherme Vergara (UFF)
11:40 Considerações finais da manhã
12-14h Intervalo
14:00 Marisa Flórido (UERJ)
14:40 Guto Nóbrega (UFRJ)
15:30 Considerações finais
16:00 Encerramento

O seminário se realiza dentro do marco da pesquisa pós-doutoral de mesmo título desenvolvida junto ao PPGCOM/UFRJ e o Núcleo N-Imagem,com o apoio da CAPES/Cnpq.

Imagine Brazil e o lugar das coisas

Imagine Brazil; Detalhe com obra de Tunga.
Imagine Brazil; Detalhe com obra de Tunga.

Há umas semanas, após visitar a exposição Imagine Brazil em São Paulo, no Instituto Tomie Ohtake, postei nas redes reflexões que abriram um interessante fórum crítico sobre o peso do mercado de arte na circulação institucional de obras e artistas no Brasil e no mundo hoje. A mostra, encerrada dia 3 de maio, foi pensada em 2013 para levar ao público europeu um panorama da arte brasileira contemporânea emergente, reunindo 14 artistas jovens a outros estabelecidos, escolhidos pelos primeiros como sendo suas referências. Assim, o todo seria uma constelação com distintas gerações que representaria o cenário das artes no país, ainda mal conhecido no exterior.

O projeto original integrava uma série de exposições realizadas no Astrup Fearnley Museet, na Noruega, acerca da arte jovem na América do Norte, (Uncertain States of America, 2003) China (China Power Station, 2006) e India (Indian Highway, 2009), e de acordo com o curador norueguês Gunnar Kvaran, a missão destas empreitadas seria “espalhar conhecimento e oferecer novas imagens a respeito das vibrantes cenas artísticas desses países”. Além de Kvaran, Imagine Brazil teve curadoria do celebrado Hans Ulrich Obrist e do francês Thierry Raspail, e antes de chegar a São Paulo passou por Oslo, Lyon e Doha.

Apesar dos renomados profissionais envolvidos e da boa seleção de artistas brasileiros, a mostra, que aqui teve versão reduzida, era um pot-pourri de trabalhos nem sempre significativos, expostos com pouca coerência, prejudicada por um formato voltado ao olhar estrangeiro que pouco sabe do país e sua arte. Assim, obras de Tunga, Adriana Varejão e até Caetano Veloso, com áudio de discos, surgiam em meio a artistas jovens como Sofia Borges, Gustavo Speridião e Rodrigo Matheus sem que houvesse um texto e contexto coerentes para o visitante que não imagina a vibração do Bras(z)il sugerida no título, mas a vive no cotidiano real.

Com diversas obras espalhadas por grandes salas, a exposição dava a impressão de ser composta de trabalhos na maioria retirados diretamente de galerias, uma vez que quase todas as fichas técnicas indicavam o nome do estabelecimento que emprestara o trabalho como “cortesia”. Sem demonizar aqui a atuação de galeristas sérios, já que a prática de empréstimo de obras para exibições é algo corrente até em Bienais (que hoje são vitrines de valorização de artistas e representantes), ali o problema era o excesso de “cortesias”, que quase aproximava a exposição a um showroom, com obras que aparentemente pertenciam mais ao galerista que ao artista. E foi esse o ponto que me moveu a lançar um post nas redes – entendendo justamente o meu próprio papel no sistema da arte como alguém que atua e colabora com o mercado, direta ou indiretamente, e que tem algum arrazoamento para analisar minimamente a situação.

Lancei um comentário crítico e indaguei por que as galerias corteses e cortejadas não constavam ali apenas nos agradecimentos junto ao texto curatorial, como é praxe, e alguns agentes culturais deram boas respostas: Patrícia Canetti, do site www.canalcontemporaneo.art.br apontou, por exemplo, que a galeria virou um ponto de referência na “geografia” do circuito, e lembrou do tempo em que as gravadoras eram importantes e suas marcas vinham à mente como um sobrenome do artista – algo que já ocorreria com a arte contemporânea; Para a crítica Carolina Soares, tal situação seria sintoma de como mercantiliza-se a arte antes que ela alcance reconhecimento crítico, e que nesse movimento o valor atribuído à obra é o de mercado, algo que cerceia o seu próprio potencial como arte.

Embora por um lado muitas instituições culturais, públicas ou privadas, ainda padecem profundas precariedades, por outro o mercado de arte brasileiro ganhou poder nas últimas décadas profissionalizando-se e articulando-se internamente, e criou um circuito legítimo que divulga – e vende – mais arte brasileira a novos e velhos colecionadores. Nesse movimento de crescimento de mercado, contudo, é importante notar que cresce também a urgência em pensar como a arte pode evitar ser dragada pela lógica de produção e descarte de produtos que domina nossa era, quando é compreendida como mais um objeto no mundo e não como pensamento sobre o mundo. Acreditar que as galerias são vilãs nesse processo seria tão ingênuo como a recusa a perceber que existe um sistema para o qual há muitos artistas dispostos a formatarem suas produções para o fim comercial e se contentarem com isso. São sinais dos tempos que fazem obras artísticas perderem conteúdo em meio ao espetáculo da publicidade ou da venda, esvaziando seu potencial de emocionar e instigar reflexões, servindo a tendências fugazes e ficando, por fim, imprestável como contribuição para um futuro mais humano e sensível.

ps. Este texto foi alterado do seu original publicado no Jornal O Globo em 4/05/2015, uma vez que sua circulação fez alguns outros agentes das artes reagirem mal às observações nele colocadas, afirmando que se estaria maldizendo o mercado por algum recalque ou moralismo. Contudo, essas afirmações não procedem posto que a discussão, ao menos nas redes, manteve-se além de picuinhas pessoais, considerando de modo franco vários aspectos da relação da arte com o sistema mercantil como dado explícito e corrente no mundo atual. Sempre haverá a voz daqueles verdadeiramente ressentidos ou dos que heroicamente esbravejam contra a norma de consumo e exclusão provocada pelo sistema capitalista. Porém, não foi o caso da discussão que se seguiu ao meu post inicial nas redes e nem pretende ser a tônica deste breve artigo.

Versão de texto publicado em Jornal O Globo, Segundo Caderno, 04/05/2015

Rodrigo Braga, “Tombo”

Exposição "Tombo", de Rodrigo Braga na Casa França-Brasil
Exposição “Tombo”, de Rodrigo Braga na Casa França-Brasil

A Casa França-Brasil apresenta “Tombo”, primeira exposição individual na cidade de Rodrigo Braga, artista nascido no Pará, criado em pernambuco e residente no Rio há 4 anos. Destaque de uma geração que surgiu na cena de arte contemporânea há cerca de uma década, Braga chamou a atenção em 2004 com a série Fantasia de Compensação, a qual consistia na sequência de imagens de seu rosto recebendo, em uma sala de cirurgia, implantes de secções da face de um cão rottweiler. De aspecto realista, as fotografias exploravam o potencial de ficção da imagem digital manipulada, e permitia ao artista simbolicamente dotar-se da ferocidade e força do animal. Tendo como assunto o enfrentamento do homem com a sua própria animalidade, a natureza e a cultura, Rodrigo Braga desde então exibe projetos que evocam com frequência imagens fantásticas e viscerais, resultantes de vivências em situações-limite que ele mesmo forja. No seu trabalho, a morte e o inescapável retorno do corpo orgânico à terra é recorrente, enquanto um ar solene parece conter a tragédia e dar um ar dramático às suas fotografias e vídeos.

Em “Tombo”, Braga mostra suas questões desdobradas de modo maduro, mantendo o tom solene mas aliviando a carga visceral. A individual, muito bem construída com a curadora Thaís Rivitti, dispensa elementos demais e incorpora objetos de distintas naturezas para criar uma narrativa menos ficcional do que parece. Troncos de palmeiras no chão, fotografias de arquivo, pranchas de botânica, croquis de arquitetura, uma videoinstalação: “Tombo” pode ser lida como um romance ancorado em fatos reais, que gira em torno do simbolismo evocado pela palmeira imperial no Brasil e em especial no Rio de Janeiro. Aqui foi plantada, por D. João VI, no Jardim Botânico, a primeira semente da árvore, trazida das Ilhas Maurício. O momento marcava a modernização da nação e a criação das primeiras instituições como a Biblioteca e a Praça do Comércio, hoje a Casa França-Brasil.

O visitante é recebido na entrada por mais de 15 toras de palmeiras centenárias que jazem no chão, como vestígios de um tempo antigo e testemunhas das transformações da cidade. Compreendidos como ruínas, os troncos têm uma cumplicidade temporal com as 24 colunas do edifício de 1820, projetado por Grandjean de Montigny. De certo modo “Tombo” traz o tom distanciado e o tempo estancado dos museus históricos, quebrado, porém, pelo video com imagens de corte de palmeiras sem vida, no Rio. A sonorização do trabalho vale uns minutos de escuta atenta.

Tombo, que significa queda e também tombamento, proteção de patrimônio, leva a uma reflexão do constante movimento de construir e demolir a memória das cidades que existe aqui. Não por acaso há referências ao prédio da Imperial Academia de Belas Artes, projetado por Montigny em 1826 e demolido em 1937 para dar lugar a um terreno hoje usado como estacionamento. Embora Rodrigo Braga não toque só neste assunto, a mostra ilustra, melancólica, o soterramento da história pelo anseio de se construir uma nova História, aquela prescrita no futuro moderno, numa utopia de progresso hoje estagnada no presente. Ao buscar o novo, deixa-se tombar, cair o velho. Mas será inevitável demolir o passado para se investir no novo? Perguntemos às palmeiras.

Publicado em O Globo, Segundo Caderno, Abril de 2015.

“Made in Brasil” na Casa Daros, RJ

5.0.2
Antonio Dias, Jogo da Náusea. 1964, Foto Peter Schalchli

Made in Brasil, em inglês mesmo, é o título da exposição em cartaz na Casa Daros em Botafogo, com curadoria de Hans-Michael Herzog e Katrin Steffen – curadores-chefe da coleção Daros de arte latinoamericana cuja sede fica na Suíça e hoje tem no Rio de Janeiro o seu espaço de exposições. A coletiva reúne cerca de 60 obras pertencentes a esta coleção privada, criadas por sete “medalhões” da arte brasileira: Antonio Dias, Cildo Meireles, Ernesto Neto, José Damasceno, Miguel Rio Branco, Milton Machado, Vik Muniz e Waltercio Caldas. Esta é a primeira exposição dedicada unicamente a obras de arte brasileira do acervo e marca a comemoração de dois anos de abertura da instituição.

O preâmbulo da mostra, na sala de visitação gratuita antes da bilheteria, traz uma família de “Humanóides” de Ernesto Neto: esculturas macias e pesadas de tule, lycra, bolinhas de isopor e especiarias para serem vestidas. Esse início lúdico também lança de imediato uma das características mais clichê da arte brasileira contemporânea no meio internacional, que vem a ser a sensorialidade e a organicidade da forma. Isso não chega a ser um problema, mas é curioso que em uma mostra com nome em inglês, curada por estrangeiros numa instituição de suíços, seja tal trabalho que abra o percurso. Ao mesmo tempo, é compreensível que o espectador seja logo recebido por essas aconchegantes peças como um sinal de boas-vindas.

Após brincarmos nas esculturas de Neto, é uma surpresa adentrar a primeira grande galeria com uma lenta instalação multimídia de Miguel Rio Branco. A sala escura com música suave, sofás e belas projeções de rostos, paisagens áridas e detalhes de natureza fotografados pelo artista desmonta expectativas do que poderia se esperar de uma arte “Made in Brasil” caricata. No geral, a seleção de obras traz algumas peças por demais vistas, como as fotografias “Medusa Marinara” e “Sigmund” de Vik Muniz, de 1997, e outras que, embora conhecidas, merecem ser experienciadas inúmeras vezes. Assim é a instalação “Missão, Missões (como construir catedrais)” de Cildo Meireles, 1987 e alguns livros de artista de Waltercio Caldas como “Giacometti”, 1997 e o hipnótico “Vôo Noturno”, de 1967. Caldas, por sinal, responde por um dos melhores momentos ocupando um espaço generoso com 23 livros que discorrem, de modo peculiar e poético, questões da arte, estética, história e filosofia. Outro destaque são os raros trabalhos de Antonio Dias das décadas de 1960-70 que explicitam a importante contribuição política e conceitual do seu pensamento artístico para a arte brasileira.

Diante de peças notáveis, sendo algumas únicas, é inevitável sentir angústia ao pensarmos que elas pertencem a uma coleção estrangeira. Não fosse a Daros Collection resolver investir no país, talvez esta exposição nunca pudesse ser vista aqui. Após a aquisição de uma das principais compilações de arte concreta brasileira pelo Museu de Fine Arts de Huston em 2007, a sensação de desfalque histórico persiste quando vemos arte brasileira de excelência em posse de coleções internacionais. Contudo, é preciso fazer jus às boas condições em que vivem estas obras e reconhecer que aqui elas dificilmente teriam o mesmo tratamento digno em reservas técnicas públicas.

Para os curadores de “Made in Brasil”, as qualidades individuais dos artistas são muito singulares e não resultam em uma visão geral homogênea: “eles têm um perfil variado, e representam o gigantesco cenário da potência artística brasileira dos anos recentes”. Porém, o título é dúbio e pode ser interpretado ao contrário, como a redução da arte de diferentes artistas em um mesmo rótulo de identidade nacional. A curadoria consegue ser melhor que isso, e o título nacionalista afinal nada mais parece do que um apelo da Casa Daros para valorizar seu produto e atrair público. Ainda assim, ausência de mulheres com boas obras na coleção é uma falta importante, tal como a mineira Waleska Soares, que ainda não expôs na instituição. O problema está para além de uma discussão politicamente correta sobre gênero, pois diz respeito ao modo como se legitima o que é “Made in Brasil”, excluindo a produção delas. Portanto, esta exposição, com obras valiosas para a nossa historiografia da arte recente deve ser apreciada mais como uma coletiva com alguns meninos do Brasil do que um recorte amplo e problematizado sobre a “cara” da arte contemporânea brasileira.

Cildo Meireles, "Missão/Missões - Como construir catedrais" , 1987. foto Zoe Tempest
Cildo Meireles, “Missão/Missões – Como construir catedrais” , 1987. foto Zoe Tempest

Mostra de Osmar Dillon no Rio de Janeiro

Osmar Dillo, Déc. 1970. Foto: Pat Kilgore
“Eu Tu”. Déc. 1970.  Foto: Pat Kilgore

O Centro de Artes Hélio Oiticica, na Praça Toradentes, Centro do Rio de Janeiro, apresenta uma singela exposição do arquiteto, artista e poeta Osmar Dillon (Belém, 1930- RJ, 2013) cuja obra integrava poesia e pintura resultando em trabalhos categorizados como livros-poemas e não-objetos verbais. Vivendo no Rio na época da eclosão do Neoconcretismo, participou das Exposições de Arte Neoconcreta de 1960 e 1961, fundamentais para os posteriores desenvolvimentos artísticos brasileiros. Embora tenha se ligado ao movimento e estado presente nestes eventos Osmar Dillon, que parece ter sido um homem discreto, não alcançou a mesma notoriedade dos colegas Lygia Clark, Lygia Pape e Hélio Oiticica, ou Ferreira Gullar, cuja obra poética-plástica veio acompanhada de um discurso conceitual sofisticado que gerou a “Teoria do não-objeto” (1960).

Esta exposição procura contribuir no reposicionamento da obra de Dillon na história da arte brasileira do século XX, apoiando-se em uma pesquisa correta e reunindo trabalhos e projetos executados entre 1960-73, sendo alguns praticamente inéditos. Como aponta a curadora Izabela Pucu, as obras reunidas mostram o interesse de Dillon na relação entre palavra e visualidade. A curadoria, construída em parceria com o companheiro de vida do artista, Roberto Feitosa, dá ao conjunto um ar sutilmente amoroso e despojado, evidenciado logo no início do percurso com uma carta de Feitosa sobre/para Dillon, datilografada em papel amarelado e emoldurada. Ali ficamos sabendo que o artista era um homem muito criativo, de bons amigos e reservado, desinteressado em self-marketing e networking – o que explicaria de certo modo a pouca visibilidade que sua obra recebeu nas últimas décadas.

A exposição, que é curta, tem trabalhos formalmente curiosos, agradáveis e bem literais no sentido de se quererem entender como literatura, imagem e desenho. Dillon, formado em arquitetura em 1954, testemunhou o desenvolvimento da arte concreta e do design no Brasil, e tais referências são marcantes no conjunto de não-objetos e livro-poemas selecionados. Fica claro que estas obras tridimensionais feitas em madeira, papel, ferro, espelho ou acrílico, participativas ou não, expressam imagens que se completam pela matéria e sua forma, em uma pesquisa artística consonante com discursos da arte dos anos 1960-70. Bons exemplos são a escultura-poema-objeto Arte e Sopro (1960-1961) e o totem Boca-Eco/Sexo-Ovo (1970). É possível tocar em vários dos trabalhos, com e sem a orientação de um monitor, sendo essencial para a fruição dos livros-poema especialmente.

A mostra termina em uma sala grande com alguns desenhos e uma tela da série Devorantes, de 1969, todos de inspiração surrealistas, que não chegam a despertar grande interesse por aparentarem ser uma amostra muito pequena do que foi uma grande pesquisa do artista. Neste espaço também se encontram os desenhos/projetos da série Estudo para um Monumento Vivencial I, II e III (1961-1970) que dialogam de modo complexo com o horizonte e a arquitetura da recém inaugurada Brasília. Em uma parede, documentos e artigos de jornal ajudam a contar a trajetória de Dillon entre os anos 1960-70, assim como um pouco do cenário da arte de vanguarda do período. Ao lado desses registros, quinze poemas do artista, datilografados em papel amarelado e emoldurados, encerram o percurso de modo tocante. São composições muito simples e ritmadas, que de certa maneira concentram o pensamento que dá corpo aos trabalhos tridimensionais. Finda a visita fica a sensação de que Osmar Dillon ainda tem muito para ser estudado e exibido, sendo este só um primeiro passo, pequeno e importante, para uma revisão mais ampla de sua obra poética.

"Arte e Sopro" (1960-61) Foto: Pat Kilgore
“Arte e Sopro” (1960-61)
Foto: Pat Kilgore

* Publicado em Jornal O Globo, Segundo Caderno, 16/03/2015

Teresa Margolles em Recife

 DSC01010A Fundação Joaquim Nabuco em Recife exibe até 8 de março a exposição “Enquanto For Necessário”, primeira individual da mexicana Teresa Margolles no Brasil, sob curadoria de Moacir dos Anjos. Conhecida internacionalmente por discutir de modo contundente a violência urbana que vitima milhares de pessoas em seu país, Margolles exibe alguns trabalhos antigos, além do resultado de um projeto novo envolvendo bordadeiras da comunidade recifense de Alto José do Pinho.

Formada em arte e em medicina forense, a artista se dedica desde os anos 1990 a um trabalho artístico que denuncia o escabroso cenário de homicídios em massa causados pelo narcotráfico no México. Tendo como ponto de partida cenas e relatos de crimes e eventos violentos ocorridos em lugares como Ciudad Juárez, na fronteira com os E.U.A., ou Culiacán, onde nasceu, Teresa cria narrativas fascinantes e dolorosas ancoradas numa realidade muito dura. Embora ela exponha situações ocorridas em cidades mexicanas, o trágico panorama que aborda se extende por muitos centros e periferias latinoamericanos marcados pela desigualdade social, corrupção endêmica e a ação criminosa de milícias de todo tipo, tal como se vê no Recife e no próprio Rio de Janeiro. Como aponta Moacir dos Anjos, o trabalho desta artista cada vez mais alcança lugares afastados do México mas que partilham com esse país a necessidade de tornar visível e lidar com a violência que atinge populações desguarnecidas dos direitos mínimos assegurados. E o direito à vida é um deles.

A exposição traz obras como PM (2012),exibida na 7a Bienal de Berlim em uma versão diferente da que se vê aqui. No Recife, o trabalho se apresenta como uma projeção sequencial de capas do jornal popular de mesmo nome colecionadas pela artista ao longo de um ano em Ciudad Juárez, uma das cidades mais violentas do mundo. Cada imagem projetada mostra as primeiras páginas do tablóide ilustradas por fotos de cadáveres, quase sempre ao lado de fotografias de mulheres sensuais e anúncios de prostituição. O ritmo quase monótono dos slides evidenciam a escandalosa desvalorização da vida no cotidiano dessa e tantas outras cidades, enquanto também explicita a operação do jornal de aproximar em seu espaço privilegiado “corpos radicalmente regulados pela morte e outros regidos pela satisfação prometida pelo sexo pago”, nas palavras do curador. Além de PM, completam a mostra Trepanações (sons do necrotério), 2003, trabalho sonoro que reproduz o ruído de uma serra cortando a cabeça de uma vítima de assassinato durante a autópsia; Esta propriedade não será demolida, 2009-2013, que apresenta fotografias de propriedades à venda ou abandonadas em função da insegurança em Ciudad Juárez; a videoinstalação Como Saímos?, 2010, que exibe um vídeo feito do interior de um carro de passeio, onde crianças pobres são filmadas, do lado de fora, perguntando aos passageiros do veículo onde há uma saída. Por último, é apresentado o resultado do trabalho realizado em conjunto com as mulheres bordadeiras da comunidade do Alto José do Pinho. Este projeto integra uma série de ações que a artista desenvolve em localidades diversas com bordadeiras convidadas a trabalhar sobre tecidos previamente embebidos em sangue ou fluidos de uma pessoa assassinada. Enquanto as mulheres conversam sobre medos e o risco que rodam suas vidas, vão surgindo imagens bordadas que remetem à sua realidade insegura e a relatos da violência testemunhada, junto a projeções de um futuro melhor que talvez chegue um dia.

No Brasil, Berna Reale, Armando Queiróz e Clara Ianni são dos poucos artistas que tocam em temas trágicos e sujam de leve o tapete vermelho do sistema artístico. Como Teresa Margolles, suas obras mostram que a arte contemporânea ainda pode fazer crítica social séria apesar da tola aura de glamour que a prende em armadilhas fúteis alheias aos conflitos do mundo real.

Versão em PDF : Preview of “Infoglobo – O Globo – 16 fev 2015 – Page #26” copy

Ricardo Basbaum/ nbp-etc: escolher linhas de repetição

RB Laura Alvim 2

A Casa de Cultura Laura Alvim recebe, sob a curadoria de Glória Ferreira, a individual de Ricardo Basbaum, um dos artistas contemporâneos brasileiros mais interessantes em atividade desde os anos 1980. Paulista, mudou-se adolescente para o Rio em 1977. Aqui começa a desenvolver sua obra experimental e multimídia fundamentada em discurso conceitual e crítico, em um percurso bastante independente do mercado de arte sem, contudo, estar a sua margem. Formado em biologia, estudou música e atua também como curador, teórico, educador, escritor, performer, etc. Sua prática interdisciplinar dialoga com artistas e etapas da história da arte no Brasil, como Lygia Clark, Hélio Oiticica e o Neoconcretismo, e se coloca como dispositivo que articula experiência sensorial, sociabilidade e linguagem. Embora seja um nome de destaque na cena artística internacional, sua pesquisa não está voltada para a lógica de produção e comercialização de objetos que, segundo ele, faz do artista um “funcionário do galerista”. Sua prática é comprometida mais com proposições participativas que envolvam o público do que com obras para serem consumidas.

A exposição reúne trabalhos novos ou inéditos no Rio de Janeiro, em um conjunto absolutamente coerente, resultante de processos de pesquisa iniciados no final dos anos 80. Na entrada o visitante se depara com um gradil e deve atravessar uma espécie de portal cujo formato é explorado há quase 20 anos no projeto NBP – Novas Bases para a Personalidade. Versos como: “canções de amor/exercício de memória/ forma específica” recebem o público e o conduzem ao salão que exibe diagramas rizomáticos cuja forma lembra corpos amebóides ocupados por muita vida e informação.

Aparentemente a mostra é hermética, mas o visitante deve relaxar e se dar um tempo para analisar cada diagrama que reúne dados e expressões estruturantes do pensamento e prática de Basbaum: “bioconceitualismo”, “conceitualismo sensorial”, “geleia adversa”, “culto ao hábito bólide” são algumas idéias estampadas nas paredes junto a dados históricos, fonemas, símbolos gráficos. No jardim de inverno com vista para a praia, esculturas-sofás são instaladas com fones que emitem a versão sonora de um outro diagrama onde, entre outras coisas, se lê o termo “suprasensorialsonemas” – o qual sugere uma definição para essa obra imersiva-musical.

A exposição tem uma seleção de vídeos que registram mais de uma década de experiências do projeto-processo “eu-você: coreografias, jogos e exercícios”, onde pessoas com uniformes, divididas nos grupos EU e VOCÊ, realizam ações coletivas coordenadas pelo artista. Alguns vídeos são divertidos, como o registro de uma ação feita em um programa de TV em 2003 no Rio Grande do Sul, e outra realizada em Shangai. Ainda que a experiência na galeria seja tranquila e silenciosa, na noite de abertura os cantores Lucila Tragtenberg e Licio Bruno realizaram experimentos de livre vocalização de textos, transmutando em ato e som a dinâmica de pensamento e trabalho do artista.

Para Ricardo Basbaum a obra de arte está enfraquecida do seu potencial transformador. Por isso sua prática incita a reflexão, a ação e a experiência estética como coisa mental e sensorial ao mesmo tempo, em propostas de difícil definição formal. Esta mostra é parada obrigatória para os que se interessam por pesquisas artísticas não-objetuais e todo o seu universo estético, histórico e intelectual. A obra-pensamento de Basbaum possui uma complexidade que não cabe neste espaço de jornal pois ela é êxtase e exercício artístico não-linear sem obviedades. Quem for à exposição (vi)verá.

RB Laura Alvim 1
Fotos: Mario Grisollis

*Publicado em O Globo, Segundo Caderno, Outubro de 2014.

Links para apreciar Ricardo Basbaum:
http://bienal.org.br/post.php?i=551
http://www.scielo.br/img/revistas/ars/v6n11/08img02.jpg
http://www.nbp.pro.br/

Crítica da exposição Made By Brazilians no Complexo Matarazzo, SP

Intervenção de Arthur Lescher. Foto: Ding Musa
Intervenção de Arthur Lescher. Foto: Ding Musa

A arte moderna e a publicidade iniciam na segunda metade do Século 19 percursos paralelos, com artistas como Tolouse-Lautrec criando revolucionárias peças gráficas em cartazes publicitários. A partir dos anos 1950, artistas de vanguarda se apropriam de imagens, ângulos e slogans de propagandas para falar do mundo à sua volta e criticar a emergente sociedade de consumo. Bons exemplos são obras de Richard Hamilton, Rubens Gerchman, Richard Prince e Barbara Kruger. O tempo passou, e hoje a publicidade busca associar às invenções criativas ou frivolidades do mundo artístico contemporâneo, a qualidade e sofisticação de muitos produtos. Seguindo a lógica de produtividade desta época, o mecenato corporativo também vai, por sua vez, apostar no potencial da arte como estratégia para visibilizar empreendimentos, investindo em eventos culturais espetaculares onde a massa de pensamento estético e social que acompanha a arte contemporânea é anulada.

A exposição Made By… feito por brasileiros, no tombado complexo Hospitalar Matarazzo em São Paulo, espelha totalmente o quadro atual das relações entre arte, marketing e mecenato corporativo. Curada pelo francês residente no Rio Marc Pottier e pelo americano Simon Watson, a mostra foi encomendada pelo também francês Alexandre Allard, empresário que adquiriu o imóvel em 2011 junto com uma holding brasileira. Os planos são, assim que aprovadas alterações na lei de tombamento do conjunto arquitetônico de 1904, reformar tudo e instalar um centro de lazer com hotel de luxo, boutiques, gastronomia e espaço cultural. Este ano, aproveitando a época da Bienal de São Paulo, os proprietários decidiram realizar este megaevento cultural que custou quase R$ 13 milhões, sendo R$ 3,5 milhões captados através da Lei de Incentivo à Cultura.

Espetacular, Made By… alcançou um previsível sucesso de público, desagradou a crítica e mobilizou parte da comunidade de artistas paulistanos contra o empreendimento de luxo no hospital histórico que funcionou até 1993. A mostra, produzida em apenas quatro meses, reúne um conjunto inconsistente de obras boas e tantas outras banais, sem uma proposta curatorial clara. A seleção de artistas é internacional e seu título, que denota nacionalismo, se refere ao livro a ser editado por Pottier para uma série de publicações sobre a arte atual dos países do BRICS. Das mais de cem instalações artísticas espalhadas no complexo, muitas são inéditas e várias só foram adaptadas ao cenário. Há intervenções de som, luz, pintura, fumaça, vídeo, esculturas, lambe-lambes, grafite, murais indígenas estilizados, apresentações de capoeira e dança. Alguns artistas contemporâneos dialogam muito bem com a memória do lugar, como é o caso de Héctor Zamora, Frank Scurti, Daniel Senise, Jean-Luc Favéro, Cinthia Marcelle, Vik Muniz e Arthur Lescher. Trabalhos bons mas fora de contexto também chamam a atenção, como é o caso dos vídeos de Nick Cave, Tony Oursler e um filme de Zé do Caixão, entre outros.

Embora o conjunto artístico seja uma miscelânea irregular e de pouco sentido, Made By… oferece obras interessantes, e o lúgubre hospital abandonado é uma locação fascinante que vale a visita. Ainda assim, a escancarada natureza marketeira espanta. Em inúmeras obras lêem-se marcas de patrocinadores logo após o nome do artista, criando confusão com o título do trabalho. Pelo percurso, o visitante é bombardeado com merchandising de galerias, indústria de cimento, champagne, vodka, hotel, cosméticos, sapatos, roupas, banco…

A presença ostensiva das empresas patrocinadoras dá a tônica geral da exposição e a subordina a luxuosos delírios corporativos. Tudo isso, porém, condiz com a filosofia do Grupo Allard, que declara em seu site, no melhor estilo Maria Antonieta que ofereceu brioches ao povo, crer “firmemente que o mundo nunca precisou ou desejou, tanto como agora, os momentos sem preço, únicos e extraordinários que são a marca verdadeira do luxo”. Será?

Publicado em Jornal O Globo, 22/09/2014

Crítica: 31a Bienal de São Paulo

31a Bienal de Arte de São Paulo – Arte da discussão
por Daniela Labra
Publicado em Jornal O Globo, 07/09/2014

Yael Bartana. Inferno, 2014
Yael Bartana. Inferno. Still de vídeo. 2014

A recém-inaugurada 31ª Bienal de São Paulo propõe um formato novo, de caráter eminentemente político, com muitos elementos para instigar e incomodar os visitantes. Tendo pela primeira vez uma equipe curatorial formada por estrangeiros, a mostra traz 81 projetos de mais de 100 artistas de 34 nacionalidades, em programa idealizado pela equipe do curador Charles Esche. A mostra fica em cartaz até o dia 7 de dezembro.

Ao entrarmos no Pavilhão da Bienal vemos algumas instalações resultantes de processos colaborativos entre coletivos de artistas e ativistas, e uma estrutura para receber atividades como debates, performances e shows artísticos e de movimentos socioculturais. No andar térreo, os trabalhos se colocam de modo esparso, e alguns se postam como pontos de leitura e pesquisa sobre ações ativistas e situações de convulsão social. Como aponta a curadoria, esta exposição não se funda em objetos, mas em pessoas que trabalham com outras, colaborativamente, e pode ser compreendida mais como um processo aberto a indagações, ações, reflexões críticas e políticas pela arte do que um panorama artístico internacional. Por sua vez, seu título acompanha essa premissa, sendo também um jogo aberto a possibilidades poéticas e reflexivas. Como (…) coisas que não existem, traz parênteses que podem ser preenchidos por muitos verbos: ver, falar, procurar, celebrar, e invoca a potência da arte e sua habilidade de influenciar a vida, o poder e credos.

A maioria dos projetos expostos, muitos realizados para a ocasião, aborda assuntos políticos, religiosos, sexuais, ecológicos, educativos, indicando que as tais “coisas que não existem” são situações da vida cotidiana palpitantes mas invisibilizadas por sistemas e culturas de exclusão e preconceito. Os curadores defendem uma Bienal sobre o estado de “virada” do mundo contemporâneo, onde é necessário se afastar dos estabelecidos parâmetros da modernidade, o que vem a ser um discussão bem europeia. Ancorada nessa ideia, a proposta curatorial minimiza os “critérios estéticos do modernismo” e parece também minimizar a modernidade brasileira, cuja história se afastou dos parâmetros estabelecidos pelo pensamento europeu assim que nasceu no espaço social.

Essa busca por outros critérios, menos estéticos, talvez justifique a boa quantidade de trabalhos políticos mas pouco interessantes do ponto de vista plástico-visual, e outros que são muito literais no seu ativismo e exageram na composição de instalações cenográficas. Além disso, há instalações estranhamente ruins, que na verdade funcionam apenas quando ativadas por performances, como é o caso de Espacio para Abortar, do coletivo boliviano Mujeres Creando.

Como em outras edições recentes, a 31ª Bienal tem atividades que ocorrem no interior do pavilhão e intervenções espalhadas no Parque do Ibirapuera. Não há artistas estelares, e os históricos são poucos, mas entre eles se destaca a poética sala do polonês Edward Krasinki (1925-2004), e os filmes do espanhol Val del Omar, filmados na ditadura franquista, nos anos 1950. Entre as obras recentes, chama a atenção a sala Dios Es Marica, organizada por Miguel Angel Lopez, com trabalhos queer dos anos 1970-80, de artistas ibero-americanos. Um dos trabalhos mais impactantes é “Inferno”, filme de ar épico da israelense Yael Bartana que critica as estratégias da indústria da fé na disputa por poder. Também é destaque a videoinstalação em multicanais do coletivo russo Chto Delat.

Os curadores replicam temáticas na moda nos países centrais, e conseguem se manter algo isentos das influências do mercado de arte que guia o movimento da internacionalização da arte brasileira nos últimos anos. Assim, há a integração de artistas desconhecidos no Sudeste, com visualidades em princípio pouco comerciais, como é o caso do paraense Éder Oliveira, que pintou um mural no Pavilhão com retratos de criminosos, tal como realiza nas ruas de Belém. A diversidade das nacionalidades da equipe deu um aspecto multicultural bastante apropriado, e permitiu com que obras políticas de distintos contextos sejam apresentadas.

Charles Esche é um nome conhecido na cena internacional atual e se destaca por desenvolver projetos que problematizam formatos engessados. Nesse sentido, sua Bienal questiona o modelo das bienais mais tradicionais em um mundo tomado pelo modelo excludente do capitalismo. Ainda assim, como qualquer ator influente no sistema da arte, não escapa da contradição de apontar as mazelas da sociedade contemporânea, consumista e elitista, enquanto recebe o patrocínio do banco privado mais lucrativo do país, cujo texto institucional na exposição afirma que é bom investir em cultura por que #issomudaomundo.

Link: http://oglobo.globo.com/cultura/artes-visuais/critica-bienal-de-arte-de-sao-pauloarte-da-reflexao-13856635

Daniel Escobar: A Nova Promessa

Exposição individual de Daniel Escobar na Galeria Zipper, de 3_9 a 5_10_2014, São Paulo.

De-Zipper-Fachada

A casa própria, o carro novo, a roupa cara, a obra de arte exclusiva. Quanto tempo leva para seu sonho material se tornar ruína? Em A Nova Promessa, Daniel Escobar aborda artimanhas ilusionistas da publicidade para apresentá-las como um dos motores do acelerado movimento de consumo e descarte que sustenta – e devora – o mundo atual. Esta individual comenta o lado patético da nossa condição humana resumida a consumidores na era pós-fordista, e traz no título também uma ironia ao próprio sistema da arte contemporânea, o qual tornou-se uma máquina provedora de objetos de alto apelo estético e baixa densidade discursiva, desejosa de jovens talentos.

A Nova Promessa remonta na fachada da Zipper a obra Anuncie Aqui, apresentada primeiramente no interior do Santander Cultural, em Porto Alegre, como um verdadeiro espaço de propaganda para aluguel. Desta vez, a operação comercial não ocorre e o outdoor surge como uma intervenção na arquitetura e no meio urbano. Porém, mesmo que desprovido de sua função primordial e legitimado como obra artística, essa peça se coloca como uma excessão no espaço público paulistano, onde está proibido por decreto instalar tal tipo de suporte. Exposta na rua, a placa se auto anuncia enquanto afirma a natureza da galeria e desvenda estratégias artísticas para re-inventar códigos éticos e criar mecanismos de privilégios pela arte.

Daniel Escobar equilibra visualidade pop com conceitos elaborados. Realizando trabalhos bem acabados e esteticamente agradáveis, ele seduz o espectador pela forma para logo inserí-lo no universo crítico do seu discurso, situado muito além da simples aparência.

Daniela Labra

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The New Promise

Home ownership, the brand new car, expensive clothes, a unique work of art – how long does your material dream last before it becomes ruins? In The New Promise, Daniel Escobar discusses the illusionistic tricks of advertising, presenting them as one of the drivers of the fast paced consumption and disposal trend, which sustains – and devours – the current world. This individual exhibit comments on the pathetic side of our human condition reduced to consumers in the post-Fordism era, and its title carries an irony to the very system of contemporary art, which has become a mass provider of objects of high plastic appeal and low discursive density, craving young talents.

The New Promise reassembles on the exterior facade of Zipper Gallery the work Advertise Here, which was first presented inside Santander Cultural in Porto Alegre, as actual rental ad space. This time around the commercial transaction is not completed, and the billboard emerges as an intervention in the architecture and in the urban environment. However, despite being devoid of its primary function and being legitimized as artistic work, it stands as an exception in the public space of the city of São Paulo, where public outdoor ads have long been banned by law. Exposed in the street, the sign advertises itself while asserting the nature of the Gallery, and unravels artistic strategies to re-invent ethical codes and to create privilege mechanisms through art.

Daniel Escobar balances pop visuality with elaborate concepts. Creating well finished and aesthetically pleasing works of art, the artist allures viewers through form, to soon after insert them in the critical universe of his speech, located far beyond simple appearance.

Daniela Labra