Salvador Dalí no CCBB

Crítica publicada no Jornal O Globo em 21/07/2014.

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Comemorando 25 anos, o CCBB do Rio exibe a mais significativa retrospectiva de Salvador Dalí já apresentada no país. Numa grande fila, pessoas aguardam animadamente para ver a mostra curada pela espanhola Montse Aguer, diretora do Centro de Estudos Dalinianos da Fundação Gala-Salvador Dalí, que selecionou pinturas, gravuras, desenhos, documentos, fotografias e excertos de filmes, abarcando o período de formação do artista, nos anos 1920, passando pelos anos 1930-40 na sua fase surrealista, até os anos 1980. No texto da exposição somos avisados que, ao contrário de outras ocasiões de Dalí no Brasil, agora veremos trabalhos bons e menos óbvios, numa seleção cujo propósito é repensar o lugar do artista na história da arte para além do Surrealismo, movimento com o qual é sempre associado.

De fato, a mostra apresenta 29 pinturas menos conhecidas dos souvenires de lojinhas de museus, e que no entanto não são inferiores, pois possuem aspectos dalinianos marcantes. Além de telas, o conjunto se completa com 80 desenhos e gravuras que demonstram o traço vivo, frenético e versátil de Dalí, especialmente observado nas ilustrações para edições de Os Contos de Maldoror e Alice no País das Maravilhas. A exposição traz documentos importantes do Surrealismo, tais como exemplares das revistas La Révolution Surréaliste (1924-29) e Minotaure (1933-39), que tiveram a intervenção do artista e de colegas como Man Ray, além do filme Um Cão Andaluz(1929) e um excerto de A Idade de Ouro (1930), com direção de Luis Buñuel eroteiro em co-autoria com Dalí.

Apesar da riqueza deste material, a postura da curadora de afirmar a singularidade da obra e da persona de Dalí como algo para além de movimentos artísticos – somada ao fato de que na Espanha a obra do artista e as vanguardas modernas européias são muito estudadas – fez desperdiçar a oportunidade de explicar melhor ao público brasileiro a determinância dos documentos e filmes ali expostos para a estética do Século XX.

Nesse sentido é questionável o modo como são exibidos, fora de contexto, retratos fotográficos de Dalí e capas de revista com seu rosto, junto a filmes publicitários em que ele é garoto-propaganda. Se este gesto curatorial de afirmação do mito diverte, ele é também outra chance perdida de contar um pouco mais da biografia e personalidade excêntrica do artista que causou mal-estar junto a intelectuais por demonstrar simpatia à ditadura franquista, e protagonizou polêmicas ao exercer atividades voltadas para o consumo de massa, como a criação da marca do pirulito Chupa Chups.

Acompanhando a lógica institucional de cativar o público com entretenimento,em Dalí as pessoas são estimuladas a fotografar tudo.No térreo, uma réplica da instalação Retrato de Mae West Como Apartamento Surrealista é aberta para o visitante entrar e fotografar-se, e apesar do recurso fazer sucesso, falta a informação de que o trabalho provém de um gouache de 1934-35 tridimensionalizado por Dalí apenas nos anos 1970. Isso sintetizaria esta exposição, a qual tem boa montagem, iluminação e traz grande diversão, mas possui informação insuficiente para quem deseja se aprofundar na obra Salvador Dalí e seu contexto artístico, político e cultural.

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