August 13, 2014

Arte, Mercado e Estratégias Cínicas

Arte, mercado e estratégias cínicas*

Banksy sells original work for just $60 in Central Park – video
Intervenção de Banksy em Nova York: Banca de rua com venda de originais.

Há pouco inaugurei, como curadora, uma mostra do artista gaúcho Daniel Escobar. Seu projeto estudou jogadas de marketing de lançamentos imobiliários para discutir a manipulação dos desejos pela publicidade. Dentre as peças expostas, um outdoor em escala natural (9m x 3m) foi colocado como espaço de aluguel para anúncios comuns, mediante a assinatura de um contrato e pagamento da locação ao artista. A placa está instalada no mezanino da instituição realizadora, o Santander Cultural de Porto Alegre, que também recebe uma popular mostra de Vik Muniz curada por Ligia Canongia.

A exposição de Daniel me fez pensar em outros projetos artísticos que transbordam o circuito da arte para funcionarem como operações reais de negócios. Tais práticas, surgem como crítica a padrões de legitimação e circulação da arte nos anos 1960. Entre 1961-62 Claes Oldenburg realizou a série The Store (A Loja), onde questionava a arte como coisa preciosa confinada em museus. Após exibir em uma galeria de Nova York trabalhos inspirados em produtos de delicatessens e lojas de roupas, ele abriu uma loja de rua e abarrotou-a com mais de cem objetos para a venda, de bibelôs baratos a obras de arte suas. Depois de meses, Oldenburg fechou o estabelecimento e fez ali o Ray Gun Theater, um espaço para performances, que então simbolizavam experimentalismo e resistência ao mercado.

Em São Paulo, a Galeria Rex (1966-67), de Nelson Leirner, Wesley Duke Lee, Carlos Fajardo e outros, atuou como lugar de crítica ao sistema mercantilista da arte, realizando exposições, publicações e debates, até fechar com um happening na abertura da individual de Leirner. No evento, o público devia arrancar obras “chumbadas” na parede, e em oito minutos a galeria ficou vazia, enquanto pessoas vendiam os trabalhos na rua. Dos anos 1960 até hoje, as críticas ao meio da arte ficaram mais complexas e sofisticadas, e comentam relações de poder na esfera social em geral.

Em 2008, na segunda-feira negra que colapsou o sistema financeiro dos E.U.A., Damien Hirst, na ação “Beautiful inside my head forever” ofereceu, sem mediadores, 223 obras em um leilão na Sotheby’s arrecadando mais de 200 milhões de libras. Sobre o caso, inédito no mercado e na história da arte, Hirst declarou que “Se alguém faz dinheiro, que seja o artista”.

Recentemente Banksy, célebre artista inglês que usa o anonimato como estratégia para fazer intervenções sem autorização, disponibilizou, por um dia e sem aviso, centenas de suas caras serigrafias em uma banca de rua de Nova York, por 60 dólares. O lucro foi pífio, mas a repercussão do ato rendeu-lhe mais notoriedade no mercado, e na semana passada a Sotheby’s capitalizou a crítica em uma mostra comercial não-autorizada com 70 obras suas. Em seu site, Banksy negou envolvimento na operação e disse achar desagradável que pessoas exibam arte em paredes sem permissão. Embora sabote o mercado, Banksy não luta contra ele, pois ao recorrer à tática do ataque seu passe se valoriza, comprovando que quando se é parte do sistema da arte o cinismo é um grande recurso para questioná-lo de dentro.

* Publicado em Jornal O Globo, Segundo Caderno, 14/07/2014

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