Pós-Não Nan Goldin: colaboração de Roberto Cabot

Lei do Silêncio na cultura

O caso de censura da exposição Nan Goldin no Oi Futuro se inscreve numa seqüência de eventos semelhantes, todos eles expressão, a meu ver, da conjunção de numerosos fatores.Entre os mais óbvios está o despreparo de pessoas incumbidas de responsabilidades pesadas na gestão da arte. A arte contemporânea não costuma ser inerte, um bom mediador controla as reações e interações com o meio ambiente, por mais corrosivas que sejam, e administra a situação para o bem da arte.

Porém, obviamente num ataque de pânico, decidiu-se cancelar uma mostra internacional já acertada, desrespeitando um edital outorgado dentro das regras da própria empresa. O motivo na base de todas as explicações que virão ou não, é o medo. As explicações até agora são vagas, e revelam uma curiosidade: o centro Oi Futuro não é uma instituição dedicada a difusão da arte contemporânea, mas é um centro educativo, direcionado ao público infantil e adolescente.

Por que uma instituição cultural se apresenta como centro de arte e cultura contemporânea mas oficialmente é uma escola? A qual ainda nos explica de repente que não tem compromisso com a arte porque sua vocação é pedagógica… A política a pública de incentivo à arte e à cultura induz à sistemática instrumentalização da arte como meio educativo. Para poder se beneficiar das Leis de incentivo o projeto deve imperativamente ser “educativo”. A isso se adiciona uma concepção paternalista do papel do Estado, que “protege” o cidadão das más influências e de tudo que possa transgredir o sonho de mundo perfeito que nos vendem as grandes corporações.

Graças a essas “leis protetoras” (leia: proibições) deixamos de debater questões importantes, posto que a informação nem é divulgada. Ao mesmo tempo, o Estado delega a aplicação de recursos públicos destinados à cultura às corporações, que tendo como objetivo valorizar sua imagem não tendem a apoiar posições que possam associar suas marcas a conteúdos polêmicos. E por fim, acredito que a sociedade sofre pressões por parte de grupos organizados que se dedicam a “denunciar” e exigir a proibição de manifestações que consideram inaceitáveis para sua idiossincrasia, pressionando empresas e instituições públicas,que passam a viver no pânico de serem tachados de “imorais” e perderem clientes, visitantes ou votos.

Parece que se pratica uma espécie de lei do silêncio cultura. Passamos pela censura dos humoristas durante a última campanha eleitoral, o fechamento da exposição da artista Marcia X, o triste episódio da prisão sumária dos pichadores da Bienal de São Paulo, a proibição recente de filmes e outras proibições de obras de arte, agora este evento.

As imagens que Nan Goldin apresenta não são encenações, são registros de uma realidade, de existências reais, portanto, com que direito proíbe-se a manifestação dessa realidade? Por que teríamos que escamotear essa faceta do mundo que compartilhamos? Por que não cola com a estética das novelas? Por que não condiz com a visão de mundo da zona sul? Novamente vejo o medo na origem dessa atitude: o medo de encarar o outro lado do shopping…

Este episódio é assustador também pelo provincianismo que revela, já que Nan Goldin é uma artista aclamada internacionalmente, e esse tipo de discussão em torno do seu trabalho já ocorreu em numerosas ocasiões, há décadas atrás…

Resta desejar que esta série de incoerências e erros seja parte de um processo de abertura e modernização da nossa sociedade, e que ainda tenhamos a ocasião de ver essa mostra que só enriqueceria a nossa paisagem cultural e contribuiria para nos colocar a altura da discussão contemporânea internacional.

Roberto Cabot, Nov. 2011

Nan Goldin tem projeto adiado e remanejado no Rio de Janeiro


Fotos: Nan Goldin

* Final feliz mas nem por isso isenta-se de reflexão o ocorrido: a exposição de Nan Goldin vai acontecer no mam-rj, com abertura em 13/02/2012 e patrocínio do Oi Futuro – porém ainda assim mantemos o texto abaixo pois o momento da cultura no Brasil merece ser discutido.

No Brasil da tecnocracia Dílmica, cada vez mais observamos projetos de arte patrocinados por grandes corporações, que por meio de descontos fiscais de leis de incentivo à cultura realizam exposições em nome da arte e de seu marketing. Isso poderia não ser de todo um problema não fosse o fato de que o investimento em artes tem sido mais e mais instrumentalizado e direcionado a projetos espetaculosos e acríticos, que evitem manchar o nome da instituição e também não venham a ferir o público. E o que seria exatamente este “ferir”?

Observamos que o espectador consumidor de produtos culturais vem sendo tratado de modo infantilizado, submetido a regras padronizantes que simplesmente esterilizam de ante-mão o que a arte tem como maior potência: a possibilidade de gerar reflexão crítica e discursos sobre o mundo controverso que habitamos.

Dentro dessa perspectiva esterilizante, o Oi Futuro, no Rio de Janeiro, instituição dedicada a projetos educativos e sem fins lucrativos (também pudera, a empresa mantenedora lucra com telefonia e tem isenção fiscal quando investe em cultura), acaba de vetar uma exposição de uma das artistas mais interessantes do final do Século XX, que é a fotógrafa Nan Goldin. A mostra iria acontecer em Janeiro de 2012, e sua supensão deveu-se ao temor de que a artista expusesse fotos de crianças junto a imagens de adultos em situações-limite.

Um jornalista me contou que a instituição havia vetado imagens de crianças nuas em princípio, e que a artista acatou. Porém, a censura se fez quando foi exigido que fotos de crianças vestidas também não integrassem a mostra. Diante disso, a perspicaz Nan Goldin sugeriu então colocar tarjas pretas sobre todas as fotos expostas, explicitando assim a ação censora institucional. Esta sugestão desagradou ao Oi Futuro que suspendeu a exposição.

A curadora independente e responsável pelo projeto, Ligia Canongia, afirmou em carta aberta que os curadores da instituição desconheciam o trabalho de Nan Goldin e que, ao verem as imagens duras – e humanas – da fotógrafa retiraram o projeto da agenda. Não ficou claro, no entanto, se o patrocínio também seria suspenso.

De certo, não conferi pessoalmente os fatos com o centro cultural, mas os jornais divulgaram tal versão hoje. De qualquer modo, houve um adiamento da exposição de Nan, aparentemente em nome de uma moral e de bons constumes que estão prá lá de abalados e caducos na contemporaneidade, o que só nos faz rir e lamentar este papelão.

O ocorrido nos leva a pensar realmente sobre a idiotização do público, a quem lhe é negado o direito de opinar e discutir algo que pode ser ou não polêmico. Em nome dessa certa ética e moral em franca crise, o indivíduo não tem mais livre arbítrio para decidir o que deseja apreciar ou não. Os poderes do capital e do Estado normatizam a vida privada e a saída parece ser mesmo afiliar-se a uma Igreja pentecostal e esperar a salvação do Messias com seu saco de presentes, pois pensar criticamente não é mais possível.

Na cidade que sofre uma reforma brutal para receber espetáculos desportistas em breve, e onde o custo de vida tornou-se estratosférico, notamos que a alienação é a melhor parte do jogo para os investidores. A maquiagem carioca não consegue lidar com os conflitos e crises da contemporaneidade, preferindo primeiro fazer calar.

Nan Goldin, que já expôs nas mais importantes instituições e mostras do mundo, não tem espaço nesta cidade onde o caos e a arbitrariedade imperam, posto que suas imagens são “chocantes”. Pois eu prefiro o choque da arte ao choque imposto pela ignorânica e a hipocrisia.

Viva Nan Goldin! Viva a humanidade de seus retratos dos excomungados pela “sociedade de bem” que se nega a ver beleza onde em princípio so há feiúra e decadência.

O ser humano é lindo mesmo em sua solidão e desespero. Essa é a mensagem de Nan.

Bela Maré :: Centro de Artes Visuais da Maré

No dia 26/11/2012 inaugura “Travessias”, o primeiro evento do centro de artes visuais Bela Maré, localizado no Complexo da Maré, Rio de Janeiro. O projeto é único em sua natureza e intenciona promover diálogos e experiências a partir de obras, ações e intervenções de artistas contemporâneos de reconhecida atuação no Brasil.

De 26 de Novembro às 17:00 a 18 de Dezembro de 2011

Local: Galpão Bela Maré. Rua Bitencourt Sampaio, 169 (entre as passarelas 9 e 10 da Av. Brasil), Rio de Janeiro. Entrada Franca.

O evento inclui uma série de atividades com curadoria de Daniela Labra, Frederico Coelho e Luisa Duarte como exposição, intervenções urbanas, exibição de vídeos, performances, oficinas, palestras e festas.

Artistas: Andre Komatsu, AVAF, Henrique Oliveira, Lucia Koch, Luiz Zerbini, Marcelo Cidade, Marcos Chaves, Matheus Rocha Pitta, Raul Mourão, Ricardo Carioba, Rochelle Costi, Alexandre Sá, Filé de Peixe, Michel Groisman, Davi Marcos e Coletivo Pandilla Fotográfica.

A abertura acontece às 17horas com bate papo com os curadores seguido de uma grande festa às 19horas no local.  A entrada é franca.

Veja a programação de oficinas e palestras, além de dicas de como chegar no galpão Bela Maré aqui mesmo:

http://www.artesquema.com/seminario-arte-crime-insubordinacoes/travessiasbela-mare-centro-de-artes-visuaisrj/

 

Re.act feminism

re.act.feminism – performance art of the 1960s and 70s today
Exhibition, video archive, live performances and conference.

Exposição que documenta trabalhos performáticos de 24 artistas espalhados por duas gerações. As obras selecionadas refletem a intenção curatorial de estender a perspectiva além do cânone do familiar e conhecido, no sentido de demonstrar a diversidade e complexidade das estratégias performáticas (feministas). Isto inclui movimentos de performance no Leste e Sudoeste Europeu, bem como na Alemanha Oriental (desde 1980), onde frequentemente se desenvolveram paralelos com a arte independente do “Ocidente”.

“The exhibition documents performative works from 24 artists spanning across two generations. The selected works reflect the curators’ intention to extend the perspective beyond the canon of the known and familiar in order to demonstrate the diversity and complexity of (feminist) performative strategies. This includes performance movements in Eastern and South Eastern Europe as well as the former GDR (since the beginning of the 1980s), which often developed parallel to and independent of “Western art”.”

A project by cross links e.V., curated by Bettina Knaup and Beatrice E. Stammer
Produced in partnership with Akademie der Künste, Berlin

http://www.reactfeminism.org

Lugar a Dudas

No instigante Seminário Internacional “Reconfigurações do Público”, realizado no MAM Rio na semana que passou, ouvimos a apresentação de Oscar Muñoz, idealizador e diretor do espaço independente Lugar a Dudas, que fica em Cali, Colômbia .

Trata-se de um local aberto à aquilo que a Arte Contemporânea mais suscita e clama: a dúvida. O espaço foi criado em um bairro decadente numa casa deteriorada que sofreu várias reformas e hoje abriga este ponto de referência em pesquisa de projetos experimentais sobre arte contemporânea na América Latina.

O Lugar a Dudas promove exposições, workshops, cursos, publicações e residências para artistas e curadores, entre outras iniciativas.

Um de seus projetos é o Fotocopioteca, que disponibilza textos curtos em publicações de xerox, como a que está abaixo, com traduções de voluntários e ao preço da xerox.  No site é possível baixar os mesmos textos em PDF, de graça.

http://www.lugaradudas.org/

MAM RIO :: Seminário Internacional – Reconfigurações do Público: Arte, Pedagogia e Participação

Seminário Internacional – Reconfigurações do Público: Arte, Pedagogia e Participação

O Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, em parceria com o departamento de educação e o programa internacional do MoMA de Nova York, a Casa Daros e a Fundação Bienal do Mercosul realiza de 8 a 10 de novembro de 2011 o seminário internacional Reconfigurações do público: arte, pedagogia e participação, um evento transdisciplinar que discutirá as perspectivas de atuação dos museus, instituições e espaços culturais alternativos no século 21. O evento, que terá mesas-redondas, oficinas e grupos de estudos, discutirá de que maneira artistas, curadores e educadores podem responder às demandas atuais da sociedade.

+ info e inscrições   http://nucleoexperimental.wordpress.com/